Um mar repleto de histórias e… naufrágios

“Portugal possui um dos maiores patrimónios náuticos e arqueológicos subaquáticos a nível mundial, um legado de grande importância e com enorme potencial de estudo.” A sinopse do livro “Pesca de Naufrágios”, de João Pedro Vaz, é esclarecedora. A extensa costa nacional carrega uma imensidão de história nas profundezas do mar.. Foram muitos os barcos e as vidas que se perderam nas águas portuguesas.

O primeiro registo de naufrágios no país data de 966. Segundo relatos históricos, uma frota viking de 28 navios que atacava a então chamada Ribeira de Silves foi afundada por galés muçulmanas andaluzes. Um indício daquele naufrágio foi obtido em 1970, durante a dragagem do porto comercial de Portimão – dois navios naufragados foram descobertos na foz do Rio Arade, um dos quais presumivelmente viking por possuir um casco de tabuado trincado. Outro naufrágio de que há memória data de 1337. O desprezo que o rei Afonso XI de Castela tinha pela mulher, a infanta D. Maria, filha do rei D. Afonso IV de Portugal, levou este a entrar em guerra com Castela. A frota portuguesa largou de Lisboa com 20 galés com o objectivo de assolar as costas da Andaluzia. Na mesma altura saiu de Sevilha a frota castelhana, com 30 galés. O encontro deu-se um pouco a norte do cabo de São Vicente, tendo os castelhanos saído a ganhar.

A partir do século XV, na Era dos Descobrimentos, os europeus, sobretudo os portugueses e os espanhóis, aventuraram-se sem receio nos oceanos Pacífico, Índico e Atlântico. Os relatos de naufrágios aumentam a olhos vistos…

Nau Nossa Senhora dos Mártires, em 1606. Partiu de Lisboa com destino a Goa em Março de 1605. No regresso chegou à barra do Tejo carregada de pimenta. Apanhada por um temporal, acabou por naufragar junto ao Forte de São Julião da Barra. Em 1997 começou a intervenção arqueológica subaquática na barra do Tejo, constatando-se a boa preservação de uma parte da carga, nomeadamente uma grande quantidade de grãos de pimenta. O espólio deu o mote ao Pavilhão de Portugal durante a Expo 98, tendo sido exposto e publicado em catálogo.

Nau Nossa Senhora da Conceição, em 1621. Vinha repleta de mercadorias da Índia mas, algures entre o Cabo da Roca e Peniche, foi tomada de assalto por 17 navios de piratas argelinos e afundou-se após ser bombardeada. O local do afundamento continua a ser um mistério, tendo até agora sido recuperado somente um canhão de bronze, encontrado perto da Ericeira.

Nau Santa Catarina de Ribamar, em 1635. Partiu de Goa em Março de 1635 e naufragou na madrugada do dia 2 de Novembro perto do Cabo da Roca. Reza a lenda que existia no século XVIII uma senhora que sabia onde ir buscar moedas de ouro numa praia da zona.

Nos tempos mais recentes, um naufrágio tornou-se atracção turística e são muitos os lisboetas que se recordam dele… Foi o do porta-contentores Tolan, em 1980, que colidiu com o cargueiro sueco Baranduna, no Rio Tejo, mesmo em frente ao Terreiro do Paço – no Cais das Colunas. Várias tentativas foram feitas para o remover, mas tal só aconteceu a 2 de Dezembro de 1983. Durante esse tempo serviu de poiso às gaivotas…

Versão completa na Revista ITINERANTE n.º 2

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