Promontorium Sacrum – Santiago, Menires, Deuses à solta e São Vicente

O extremo sudoeste peninsular, promontório finisterra majestoso e solitário, foi desde tempos imemoriais palco de veneração religiosa e mística, guardando nos dias de hoje múltiplos vestígios desse rico historial.

Quando o corpo de S. Vicente deu à costa no actual cabo a que deu nome, guardado por dois corvos vigilantes e protectores, foi recolhido pelos cristãos locais e depositado num santuário que, já nessa altura, era alvo da devoção antiga: a Igreja do Corvo.

Localizada no próprio cabo ou, mais provavelmente, alguns quilómetros para o interior, esta igreja foi a meta de intensa peregrinagem durante todo o período de domínio árabe, atraindo populações de todo o Sul da Península e corporizando no culto vicentino toda uma tradição milenar de sacralidade desta finisterra do Sul.

Território juncado de menires, testemunhos actualmente tombados e fragmentados de cultos neolíticos, continuou a ser lugar sagrado para os romanos, que nele veneravam e celebravam os seus deuses e os dos locais, como era seu uso.

Estrabão (geógrafo grego do século I) relata a existência de pedras que eram roladas em oração, assim como a proibição de frequentar o local de noite: «Não é permitido oferecer sacrifícios nem aí pernoitar pois dizem que os deuses o ocupam àquelas horas. Os que o vão visitar pernoitam numa aldeia próxima, e depois, de dia, entram ali levando água, já que o lugar não o tem», acrescentando ainda que, segundo tradições populares, neste local o Sol aumenta no Ocaso, pondo-se com ruído, como que a extinguir-se entre as águas do Oceano.

O promontório foi desde sempre lugar de peregrinação, tendo, em período de dominação islâmica, acolhido peregrinos cristãos e muçulmanos que lhe chamavam Chakrach, e se dirigiam principalmente à Igreja que albergava as relíquias do santo mártir: a Igreja do Corvo.

Artigo de José Maria Gama Nunes.

Versão completa na Revista ITINERANTE n.º 3

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