A língua portuguesa também sofreu influências das Invasões Francesas e devemos-lhes algumas das expressões populares que hoje utilizamos.
“Ficar a ver navios” foi o que aconteceu a Junot quando chegou a Santa Catarina e viu a frota com a Família Real, a caminho do Brasil, a passar a barra do Tejo. Esse fracasso não impediu Junot, durante alguns meses, de governar Portugal vivendo “à grande e à francesa” – ficaram famosas as suas recepções e festas – e de cometer grandes atrocidades contra quem se lhe opunha. Henri Loison, general francês, alcunhado de “o maneta” foi o símbolo dessa repressão e, por isso, “ir para o maneta” continua a não ser uma coisa muito desejada… Claro que, na hora da partida, Junot fez uma “despedida à francesa”: rápida, discreta, sem sequer se despedir do anfitrião…
Também se diz que é “para inglês ver”… As semelhanças fisionómicas dos portugueses baralhavam os ingleses que não conseguiam distinguir uns de outros. E como quem pagava aos nossos soldados eram eles, alguns dos nossos, espertos que nem alhos, aproveitavam-se para receber o seu “pré” duas e três vezes, em acampamentos diferentes… Descoberta a tramóia passou a ser obrigatório que cada um recebesse na presença do respectivo oficial inglês. Era “para inglês ver”…
As curiosidades linguísticas não se ficam por aqui… Por exemplo, na zona do Porto, há uns pequenos pães, os moletes, recordando o general Mollet que por aí esteve.
Falando em “paparoca”… Há um prato típico da Beira Litoral, a chanfana, que, diz-se, tem a sua origem nas invasões francesas. Para enfraquecer o inimigo francês, a célebre táctica da “terra queimada”, inquinavam-se os poços e as nascentes de água. O povo, também ele privado de água mas com fome, começou a cozinhar a cabra velha em vinho, numa caçoila de barro preto, permitindo armazenar – culpa do coalho, a camada de gordura protectora – tão delicioso repasto, durante muito tempo… É um facto: “a necessidade aguça o engenho”…
E há o “vinho dos mortos”, tão afamado na região de Boticas, em Trás-os-Montes… Parece que, para não serem roubados pelos soldados franceses, os lavradores enterravam as vasilhas de vinho, deitando-as ao comprido e cobrindo-as com terra. A surpresa veio quando as desenterraram; o vinho tinha ganho uma cor e um paladar ímpares. Por isso, na região, há quem continue a enterrar as garrafas produzindo o “vinho dos mortos”…
Depois de ter lido estas linhas não diga que não aprendeu nada, que foi tempo perdido, que está “tudo como dantes: quartel-general em Abrantes!”.
Versão completa na Revista ITINERANTE n.º 1

Adorei este artigo.
Muitos parabéns pela revista. Está excelente!
Achei este artigo divinal. Pela curiosidade, pela pertinência das expressões e pela cultura geral que transportam.Os meus parabéns!!!
Sou de Setúbal e carrego muito nos erres.
Há quem diga que isso acontece a quem é da zona do Troino, mas eu nasci no outro extremo da cidade…
Penso que o facto de ser charroca tenha origem nas Invasões Francesas. Será que alguém me pode ajudar? Carregamos nos erres por causa dos franceses?