Os cinco pilares do contrabando, no Alentejo

(a partir de textos e livros escritos por Luís Filipe Maçarico)

Documentos antigos confirmam a existência secular do contrabando, passagem clandestina de bens e mercadorias entre dois países, para evitar o pagamento de taxas alfandegárias, mas foi entre 1935 e 1960, nas zonas fronteiriças de Campo Maior, Elvas, Sobral da Adiça e Santana de Cambas que o contrabando irrompeu em larga escala.

A MISÉRIA

A pobreza e o desemprego que afligiam portugueses e espanhóis foram decisivos para o envolvimento de multidões de desfavorecidos no contrabando. Foi a miséria no Alentejo e a Guerra Civil espanhola que despoletaram um intenso vaivém dos dois lados da fronteira, em busca da sobrevivência. Café e ovos eram algumas das mercadorias levadas para Espanha enquanto a bombazina era trazida para Portugal. Indivíduos de todas as idades contrabandeavam para sobreviverem.

A GUARDA

A Guarda-Fiscal e os carabineiros eram a outra face da mesma moeda. Procedendo a constantes perseguições, prisões e até a mortes, zelavam para que os Estados taxassem as mercadorias. Mas sem o transporte ilegal de bens teriam a profissão ameaçada. Uns não existiam sem os outros… por isso, também se testemunharam atuações mais humanas por parte de alguns elementos policiais. Até houve contrabandistas que viraram guardas… e guardas que se tornaram contrabandistas!

OS RISCOS

Contrabandear significava correr grandes riscos. O afogamento, na travessia de rios e ribeiras, durante o transporte noturno em noites e madrugadas invernosas de chuva e frio, aconteceu. Também havia o risco de ser preso. E havia os tiros, por vezes certeiros. E havia a traição dos ameseiros, os denunciantes.

Os riscos corridos eram o preço do desespero; mas também da audácia.

A AUDÁCIA

A audácia, a ousadia foi, sem dúvida, o motor fundamental do contrabando. Muitos arriscaram-se sozinhos, a maioria organizou-se em grupos. A organização do contrabando passava por pactos de segredo e solidariedade que contribuíam para desenvolver localmente comércios e estatutos sociais.

A PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA

O contrabando marca o património e a memória do povo raiano. O Alentejo não é exceção.

Muitos são os relatos e testemunhos de quem praticou o contrabando; muitas histórias do contrabando “alimentaram-se” da heroicidade dos seus protagonistas e, por isso, foram celebradas pelo imaginário popular, por poetas, escritores, lendas, efabulação e até alguns artigos, investigações e intenções políticas locais…

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