O cavalo de desporto e as Linhas de Torres Vedras. A propósito do Raid das Linhas de Torres Vedras - A opinião de Miguel de Vasconcellos Guisado

Quando o Barão de Marbot, ajudante do Marechal Massena, chegou às Linhas de Torres Vedras e, se posicionou próximo do Sobral de Monte Agraço, verificou para grande surpresa sua, que os ingleses usavam soberbos cavalos de caça para os espiar. A doutrina militar sempre lhe havia ensinado que os cavalos de desporto eram inúteis para a guerra, pois eram raros e de preço muito elevado.

Claro que os britânicos não formavam com eles regimentos mas confiavam-nos a alguns oficiais de elite bem treinados, normalmente dragões de cavalaria ligeira, que com o intuito de recolher informações de relevância sobre o invasor, se aproximavam das hostes francesas, isolados e fora do alcance de tiro. Caso os franceses tentassem porventura alcançá-los, metiam esporas às montadas e rapidamente se desenvencilhavam dos perseguidores, prosseguindo então as suas observações.

A importância atribuída a estes valiosos cavalos era tal, que os seus utilizadores tinham instruções para abatê-los sempre que houvesse risco de caírem em mãos inimigas.

Os franceses por seu lado, ambicionavam capturar um destes belos exemplares, recorrendo para o efeito aos mais curiosos estratagemas. O Barão de Marbot registou nas suas memórias, que certo dia após uma escaramuça, um voltigeur fingiu-se morto, com o intuito de atrair a atenção dum desses espiões, acabando por surpreendê-lo e aprisionando-o, sem conseguir contudo evitar a morte da soberba montada.

Foi mais bem sucedido o personagem criado por Sir Arthur Conan Doyle, pai de Sherlock Holmes, nas deliciosas aventuras do Brigadeiro Gerard nas Linhas de Torres, que narram a história de um audaz oficial francês de cavalaria, que com o intuito de espiar os aliados, conseguiu atravessar a primeira linha junto  ao Mosteiro de Santo António do Varatojo, montado num esplêndido cavalo árabe, rumando meio desorientado por entre as trevas da noite, em direcção à zona central dos quartéis generais dos aliados. Quando contornava o posto principal de observação e comunicação, a sua montada foi abatida a tiro, por um piquete anglo-luso, obrigando-o a refugiar-se numa quinta que servia de alojamento a oficiais ingleses que ali se haviam instalado com as suas valiosas montadas de caça.

O intruso acabou por ali furtar um desses ágeis puro sangue e, graças ao seu uniforme azul, similar ao de muitos oficiais britânicos, acabou por regressar incólume aos piquetes franceses avançados, infiltrado numa caçada à raposa, das inúmeras perpetradas pelos ingleses por trás da primeira linha.

Segundo Lionel Dawson, a caça à raposa gozava de grande prestígio entre os oficiais britânicos durante a ocupação das Linhas de Torres Vedras. Desafios, jogos e perseguições eram frequentes, com o devido conhecimento das fronteiras entre os territórios aliado e francês. Wellington tal como os velhos oficiais do seu tempo, encarava a caça à raposa como um excelente desporto, adequado ao treino e orientação do soldado. O período passado por entre as Linhas de Torres Vedras assinalou o nascimento da caça à raposa em Portugal. Wellington mandou vir de barco de Inglaterra uma matilha de beagles, caçando com os seus oficiais, três dias por semana, nas redondezas dos respectivos quartéis generais.

O Comandante em chefe tinha pelo trajo um soberano desdém, dizendo muitas vezes que o seu principal desejo era que lhe apresentassem homens a tempo e prontos a combater. Montado no seu cavalo Copenhaga, de sangue Irlandês, o general em chefe, gozava contudo de grande prestígio por entre as suas tropas.

A negligência do chefe incitava à existência de diferenças de regimento para regimento e não era raro encontrar oficiais superiores com uniformes extravagantes. O General Tomás Picton, comandante da 3ª divisão, inicialmente instalada em Torres Vedras, nunca deixou de usar o seu chapéu alto.

Todos os oficiais participavam nas caçadas nos seus uniformes regulares, representando todas as armas do exército. Havia casacas vermelhas, dragões e oficiais de infantaria provenientes de vários regimentos, formando uma heterogénea massa multicolor. O próprio Wellington apresentava-se frequentemente de capote cinzento. Por entre as linhas o terreno era dobrado, mas aberto sem grandes obstáculos Os locais das tocas das raposas, tais como o moledo da Serra do Socorro, eram bem conhecidos dos caçadores. A única zona proibida era a saída da linha principal dos fortes em direcção ao inimigo.

O matilheiro de Wellington chamava-se Tom Crane e usava uma jaqueta encarnada fora do vulgar. Certo dia uma raposa escura alterou subitamente a rota da caçada e fez com que Tom atravessasse a linha inimiga sem se aperceber. O alarido da matilha e o som da trompa, atraíram uma patrulha francesa de cavalaria ligeira, que assim deparou com um excêntrico inglês com uma pele de raposa dependurada do seu selim, rodeado de estranhos cães.

Toda a equipagem seguiu assim aprisionada sob ordens dum sargento francês, para o quartel general do inimigo. Os cães foram encerrados numa quinta próxima. A captura despertava a curiosidade de todas as tropas da vizinhança. Porém, com a ajuda dum intérprete, ao contrário das suas expectativas, cedo descobriram que não estavam na presença dum inglês importante, mas sim do criado de um inglês importante. Durante a noite os cães separados do seu dono, ganiram tanto que os franceses acabaram na manhã seguinte por libertar e expulsar dali a equipagem e o seu mestre.

O Raid Hípico, que todos os anos se realiza no início da Primavera, evoca o papel preponderante dos oficiais especiais de cavalaria ligeira que com os seus magníficos soberbos cavalos e sofisticadas carabinas Elliot, cruzavam as linhas para espiar o inimigo ou levar mensagens importantes, sempre que condições climáticas adversas impediam o regular funcionamento dos postos de comunicação.

O Raid Hípico relata mesmo uma reconstituição histórica ao longo do seu percurso, que passamos a descrever: O General Picton com a sua divisão localizada nas imediações de Torres Vedras, decide certificar-se do exacto posicionamento do exército francês de Massena. Desse modo envia os seus bem treinados oficiais exploradores, atravessar a Serra da Archeira, para espiar as movimentações do 8º corpo, comandado por Junot, junto à Quinta da Conceição na Caixaria. Porém já no seu regresso, os cavaleiros, sob uma intensa neblina matinal são impossibilitados de enviarem as informações a Wellington, através da Serra do Socorro. Dirigem-se então à estalagem da A de Guerra, onde contactam o General Cole, seguindo posteriormente a Pêro Negro, onde o General em chefe por sua vez, ordena-lhes que avisem Beresford, então no Alqueidão, La Romana na Enxara dos Cavaleiros e Spencer na Quinta da Póvoa. Este último, perante a dissipação da neblina, dá instruções para que a mensagem seja finalmente enviada a toda a linha através da Serra do Socorro.

No dia 20 de Março de 2010, mais um Raid Hípico vai acontecer. Marque já na sua agenda! É um sábado. Dê uma saltada, por exemplo, até à Serra do Socorro. Aprecie a paisagem e a beleza dos cavalos e pense que há duzentos anos atrás eles também andavam por aqui em arriscadas missões de guerra!

Comentários

  • Deve ser muito interessante.
    Que pena o meu cavalo não poder ir.
    Beijinhos
    Ana

  • Carmo Van Uden / 01-03-2010 / 6:29

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Sobre o autor

Miguel de Vasconcellos Guisado

Presidente da Comissão Organizadora do Raid das Linhas de Torres Vedras