O 5 de Outubro - A opinião de Lourenço Pereira Coutinho

Proclamada a República, constituiu-se de imediato o governo provisório, composto por alguns dos mais conhecidos nomes republicanos do tempo da propaganda. A maioria do país, que assistiu com espanto à queda da monarquia, ficou na expectativa de perceber o que iria mudar com a tão falada República. Apesar das boas intenções de muitos, pouco foi para melhor.

“Das principais promessas republicanas dos tempos da propaganda, quase todas ficaram por cumprir: O sufrágio universal nunca passou de uma miragem. Ao contrário do esperado, as leis eleitorais da primeira fase da República foram severas, e impediam a participação de forças monárquicas e católicas, restringindo também a participação dos socialistas.

A educação para todos também foi uma quimera, e uma das áreas em que os republicanos falharam em toda a linha. A República (e sobretudo Afonso Costa) viveu obcecada com o controlo do déficit, e nunca cabimentou o dinheiro suficiente para a construção de escolas.

O municipalismo, tantas vezes defendido pelo republicanismo utópico, também não se deu bem com os ares do novo regime, e sofreu da fúria centralista de um governo que, ao bom estilo jacobino, inspirava-se no centralismo de modelo francês da época revolucionária e napoleónica.

Como seria de esperar, apenas vingaram as ideias anticlericais, propositadamente agitadas para gerar tensões e separar as águas, e fundamentais para criar uma República radical e alimentar a fúria justiceira da Rua.

Carta fora do baralho nos planos dos revolucionários de Outubro de 1910, e na altura o mais improvável ‘dono’ da República, Afonso Costa conseguiu in extremis o seu lugar no Governo Provisório.

Depois, fez do ministério da Justiça um dos pólos de força do regime, que radicalizou através da sua legislação progressista, com o apoio dos “jovens turcos” e o controlo da Rua.

Um a um, foi eliminando os seus adversários, até se tornar o senhor incontestado da República, e o principal causador da sua inviabilidade.

Muitos dos grandes vultos do Partido Republicano afastaram-se desconsolados com o rumo seguido, e os únicos que ousaram fazer-lhe frente, o lutador e intransigente Brito Camacho, e o demagogo António José de Almeida, foram vencidos e reduzidos à insignificância política.

O regime optou claramente por uma feição intolerante e radical, a única que lhe permitiria sobreviver face a um Portugal ainda rural e maioritariamente conservador, mas que só poderia conduzir ao caos.” (in Excerto do epílogo do livro “Cinco de Outubro”, de Lourenço Pereira Coutinho, Sextante, 2010)

A 5 de Outubro de 1910, quando a República foi proclamada por José Relvas na varanda da Câmara de Lisboa, estava-se ainda longe de prever tal cenário. Nessa manhã, os líderes republicanos abraçavam-se, enquanto os carbonários e sargentos que fizeram a revolução davam vivas ao novo regime. Prometia-se um futuro risonho, havia esperança no ar e sentia-se uma alegria contagiante, como acontece sempre que as utopias se transformam em realidade.

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Sobre o autor

Lourenço Pereira Coutinho

Lourenço Pereira Coutinho nasceu em Lisboa em 1973 e é licenciado em História. É autor do ensaio
Do Ultimato à República (2003), dos romances Na Sombra de João XXI (2006), Fim d’Época (2007),
Baile de Máscaras (2008), e Cinco de Outubro (2010).
É o Consultor Científico do "Conhecer" deste número da Itinerante.

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