- O desfile cívico, nos tempos finais da Monarquia, era uma das formas de protesto favoritas dos republicanos. Reconhecem-se, nesta foto, Bernardino Machado, António José de Almeida, Augusto Soares e Afonso Costa. PT/AMLSB/AF/LIM/002934
- Foi na Rotunda que se concentraram os revolucionários republicanos, no dia 4 de Outubro de 1910. PT/AMLSB/AF/FRA/000018
- Tropas monárquicas estacionadas no Rossio por ocasião do 5 de Outubro de 1910. PT/AMLSB/AF/LSM/000252
- 5 de Outubro de 1910, Praça do Município, em Lisboa. O povo aclama a proclamação da República. PT/AMLSB/AF/JBN/000444
“Das principais promessas republicanas dos tempos da propaganda, quase todas ficaram por cumprir: O sufrágio universal nunca passou de uma miragem. Ao contrário do esperado, as leis eleitorais da primeira fase da República foram severas, e impediam a participação de forças monárquicas e católicas, restringindo também a participação dos socialistas.
A educação para todos também foi uma quimera, e uma das áreas em que os republicanos falharam em toda a linha. A República (e sobretudo Afonso Costa) viveu obcecada com o controlo do déficit, e nunca cabimentou o dinheiro suficiente para a construção de escolas.
O municipalismo, tantas vezes defendido pelo republicanismo utópico, também não se deu bem com os ares do novo regime, e sofreu da fúria centralista de um governo que, ao bom estilo jacobino, inspirava-se no centralismo de modelo francês da época revolucionária e napoleónica.
Como seria de esperar, apenas vingaram as ideias anticlericais, propositadamente agitadas para gerar tensões e separar as águas, e fundamentais para criar uma República radical e alimentar a fúria justiceira da Rua.
Carta fora do baralho nos planos dos revolucionários de Outubro de 1910, e na altura o mais improvável ‘dono’ da República, Afonso Costa conseguiu in extremis o seu lugar no Governo Provisório.
Depois, fez do ministério da Justiça um dos pólos de força do regime, que radicalizou através da sua legislação progressista, com o apoio dos “jovens turcos” e o controlo da Rua.
Um a um, foi eliminando os seus adversários, até se tornar o senhor incontestado da República, e o principal causador da sua inviabilidade.
Muitos dos grandes vultos do Partido Republicano afastaram-se desconsolados com o rumo seguido, e os únicos que ousaram fazer-lhe frente, o lutador e intransigente Brito Camacho, e o demagogo António José de Almeida, foram vencidos e reduzidos à insignificância política.
O regime optou claramente por uma feição intolerante e radical, a única que lhe permitiria sobreviver face a um Portugal ainda rural e maioritariamente conservador, mas que só poderia conduzir ao caos.” (in Excerto do epílogo do livro “Cinco de Outubro”, de Lourenço Pereira Coutinho, Sextante, 2010)
A 5 de Outubro de 1910, quando a República foi proclamada por José Relvas na varanda da Câmara de Lisboa, estava-se ainda longe de prever tal cenário. Nessa manhã, os líderes republicanos abraçavam-se, enquanto os carbonários e sargentos que fizeram a revolução davam vivas ao novo regime. Prometia-se um futuro risonho, havia esperança no ar e sentia-se uma alegria contagiante, como acontece sempre que as utopias se transformam em realidade.



