Por quase todo o país há relatos da devastação e das atrocidades praticadas pelas tropas beligerantes durante as Invasões Francesas, mas é nas povoações próximas das «Linhas de Torres Vedras» que os testemunhos são mais vivos, resultado de ser uma das regiões mais afectadas pela passagem e permanência das tropas francesas e inglesas.
António Teixeira de Figueiredo, proprietário na Ribaldeira, perto de Dois Portos, cuja família reside na região há mais de 400 anos, conta-nos, a propósito do tema, histórias soltas da família: fala de um serviço de prata que, por estar amolgado, se diz que esteve enterrado aquando das invasões. E acrescenta risonho: «Foram encontradas também libras de ouro no entulho da demolição da parede de uma casa de família e logo se achou que tinham sido escondidas nessa altura. Alguém viu algumas dessas libras mas o pedreiro que fez a obra nos anos 20 sempre negou a sua existência. Na verdade, comprou mais tarde casa e terrenos que não eram adequados aos seus rendimentos.» Também a existência de montes de pedra, numa quinta desta família, em locais estratégicos, leva o seu proprietário a associá-los de imediato com trincheiras, o que tem a sua lógica por se encontrar em ondulações do terreno com boa visibilidade e perto das Linhas de Torres.
Outro dos nossos entrevistados, Joaquim Biancard Cruz, referiu algumas pequenas histórias da sua família, oriunda do Sobral de Monte Agraço: «Os meus antepassados esconderam debaixo de terra um faqueiro de prata; em casa das minhas primas existe uma cómoda/escrivaninha que consta ter servido de secretária ao General Beresford.» Uma outra casa desta família, em Pêro Negro, foi o quartel-general de Wellington, mas foi vendida e os vestígios da passagem do general foram há muito apagados.
Foi em Sobral de Monte Agraço que, na 3.ª Invasão Francesa, ocorreram os mais violentos combates travados na zona das Linhas de Torres Vedras. Testemunho disso é a existência de uma rua a que a população chamava «a rua das casas queimadas». Outro dado significativo é o desaparecimento de toda a documentação existente na Câmara anterior a 1810; muito provavelmente resultado dos incêndios ocorridos na Vila aquando da sua ocupação pelos franceses. A excepção ao vandalismo e à destruição foi a Casa dos Condes de Sobral; a esposa do 1º Conde do Sobral, José Braamcamp de Almeida Castelo-Branco era Louise de Narbonne-Lara, filha do Conde de Narbonne, um dos mais reconhecidos ajudantes de campo de Napoleão Bonaparte… Talvez tenha sido essa a razão pela qual a sua casa foi poupada. De facto, grande parte da documentação anterior a 1810 encontra-se ainda na casa.
Mas já na 1.ª Invasão Francesa, a região à volta de Lisboa tinha sofrido os horrores do exército francês. O povo de Mafra, por exemplo, viu as suas casas e as igrejas serem saqueadas e sentiu as exigências que fizeram ao Juiz de Fora da Vila de Mafra para entregar mantimentos. Nem a roupa branca do palácio escapou: foi requisitada para fazer fardamentos, tendo essa tarefa sido entregue a costureiras de Mafra.
Perante a opressão o povo revolta-se contra o invasor. Jacinto Correia, um jornaleiro mafrense, foi a Tribunal de Guerra após ter morto dois franceses. Por ordens de Loison, o Maneta, foi fuzilado junto ao Convento de Mafra. Permanecem as suas últimas palavras: «se todos fossem como eu não sobrava um francês vivo».
Na Ericeira também há testemunhos dessa revolta: conta-se que um taberneiro, José Francisco Malta, matou alguns soldados franceses embebedando-os e atirando-os depois para dentro do poço que tinha no quintal.
Não restam dúvidas; estes e outros casos demonstram que a região saloia resistiu e combateu, com os meios que tinha, o invasor francês. A propósito desta resistência vale a pena ler «Razões do Coração», de Álvaro Guerra, baseado no diário de Frei Pedro Taveira, um monge que se refugiou em Ribamar, a poucos quilómetros da Ericeira, fugido do Convento de Mafra em 1808, à aproximação dos franceses. Um excelente e maravilhoso retrato de um Portugal ocupado e do seu povo a lutar pela liberdade.
