Linhas de Torres Vedras: regresso ao passado, uma viagem ao futuro

Esta é uma história com 200 anos. E é, certamente, uma história que vai perdurar com o passar do tempo. É acerca de um dos momentos mais marcantes da História de Portugal, para muitos na génese do Portugal Contemporâneo, embora seja, por vezes, um pouco esquecido.

É um facto: nem todos os portugueses estão familiarizados com a construção das Linhas de Torres Vedras, sendo várias as perguntas que se colocam quando se fala sobre este tema. É a resposta a algumas delas que tentaremos dar, com base nas conversas informais que tivemos com representantes dos seis municípios que albergam as fortificações das Linhas. Nestas conversas focámos dois pontos essenciais – o passado e o futuro –, através de episódios significativos que aí aconteceram há 200 anos e do que está a ser feito em prol do património histórico e cultural das Linhas. Iniciemos a nossa viagem…

Vila Franca de Xira: a importância do rio Tejo na defesa de Lisboa

Vila Franca de Xira é o nosso primeiro ponto de paragem. E a conversa com Carlos Silveira, do Museu Municipal, começa de forma interessante: “Entre os seis concelhos onde foram construídas as Linhas, Vila Franca tem uma particularidade: a ligação ao rio. O flanco direito das Linhas de Torres acabava no rio e foi uma vantagem ter a marinha britânica com navios de guerra ancorados nas águas fronteiras a Alhandra e 12 a 14 lanchas canhoneiras a defender o Tejo. As tropas francesas não conseguiam passar para o outro lado, para a margem sul, para tentar alcançar Lisboa, por exemplo, por Almada”. Reflexo da actividade dos navios de guerra estacionados no Tejo, Carlos Silveira recorda o que se passou com o general francês de cavalaria Sainte-Croix, atingido a tiro por uma lancha canhoneira.

Outro episódio histórico passou-se na região de Calhandriz: “Foi no dia 16 de Outubro de 1810 que o marechal Masséna, num reconhecimento, quase foi atingido por um tiro disparado do Reduto Novo da Serra do Formoso. Diz-se que Masséna tirou o chapéu, fez uma vénia em sinal de respeito e consideração pela qualidade do atirador e retirou-se”, explica Carlos Silveira.

Também a Quinta da Subserra, nos arredores de Vila Franca de Xira, ainda que de forma indirecta, está ligada às Invasões. Foi para aqui que o general Pamplona veio viver depois de ter lutado ao lado dos franceses, integrado na Legião Portuguesa.

Vila Franca de Xira, no âmbito das Comemorações do 2.º Centenário das Linhas de Torres, já apresenta trabalho feito. Por exemplo, o Monumento às Linhas de Torres, conhecido como “Monumento a Hércules”, está recuperado e está prevista a recuperação de três núcleos de fortes: 2 em Alhandra, na primeira Linha, 3 na Serra da Aguieira (Monte Serves) e o Forte da Casa, onde ficará instalado o Centro Interpretativo de Vila Franca de Xira. Elucidados, partimos à “descoberta” de outro concelho…

Torres Vedras: ponto-chave das Linhas de Torres

A próxima paragem da Itinerante é em Torres Vedras. De acordo com Rui Brás e Ana Almeida, da divisão de Cultura e Turismo da Câmara Municipal, são muitas as curiosidades, na cidade, que existem relativas às Invasões. Como, por exemplo, a descoberta recente de um botão do corpo dos Voluntários Reais do Comércio.

Mas um dos aspectos que mais impressiona, quando se fala das Linhas, é o enorme secretismo que envolveu a sua construção: “É extraordinário terem-se construído todos estes fortes, existirem obras em quase tudo o que era cume e só um conjunto muito restrito de pessoas conhecia a sua razão de ser… E repare-se que a construção das Linhas envolveu cerca de 150.000 camponeses, recrutados num raio de 100 quilómetros”, revela Rui Brás. Também impressionante e consequência directa das Invasões Francesas, sobretudo da última, foi o êxodo rural que aconteceu nessa altura, em direcção à capital. “A política de terra queimada, imposta por Wellington, dificultou a vida aos franceses, treinados para viverem do saque, mas significou um enorme sacrifício para os portugueses, obrigados a abandonarem as suas terras. A Guerra Peninsular teve consequências desastrosas para Portugal, não só económicas, como políticas e sociais; estima-se que foi responsável por mais de 100.000 mortes e foi preciso esperar cerca de 50 anos para que a situação política estabilizasse”, refere Rui Brás, que conclui: “Foram tempos mesmo muito conturbados!”

Felizmente os tempos agora são bem diferentes e Torres Vedras trabalha, com afinco, para preservar e promover o seu património associado às Linhas. Estão previstas obras de intervenção em seis fortes, a possibilidade de criar um Guia Multimédia, um equipamento que o visitante levanta no Centro interpretativo e o ajuda a descobrir a região, assim como a intenção de continuar a apoiar algumas das actividades desenvolvidas especificamente para as comemorações, nomeadamente peças de teatro e recriações, mas que podem continuar a ser fontes de atracção de turismo.

Antes de partirmos, tempo ainda para uma confidência deixada por Ana Almeida: “Parece que os ingleses não tinham uma opinião favorável dos portugueses… Em algumas das descrições parece que estão a falar de… primitivos. Pessoas feias, com maxilares grossos, todos muito parecidos…” Mas gente esperta! Pelo menos os nossos soldados souberam tirar partido dessa dificuldade inglesa em nos diferenciar e iam de acampamento em acampamento receber vários prés! Descoberta a tramóia, passou a ser obrigatória a presença do oficial britânico no acto de pagamento… Era “para inglês ver”!

Loures: lugar de encontros

E nós fomos até Loures ver o que se passa… Loures, terceiro ponto de paragem da Itinerante, é também rico em histórias deliciosas sobre a passagem de ingleses e franceses por Portugal. “Sabemos que Wellington esteve em Bucelas mais que uma vez e que ofereceu aos reis de Inglaterra várias garrafas de vinhos Arinto, da região de Bucelas, o que levou, nessa altura, ao aumento do consumo desta casta, bem como das exportações. Os oficiais ingleses gostavam muito do vinho branco desta região…” começa por contar Florbela Estêvão, da divisão do Património Cultural/Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Loures.

É muito provável que também os franceses gostassem do Arinto de Bucelas e que algumas vezes o tenham consumido na companhia do inimigo! Confuso? Não! Os tempos eram outros e há descrições que dão conta da existência de alguma proximidade entre oficiais franceses e ingleses. Quem sofreu realmente com tudo isto foram os portugueses, sobretudo os mais pobres. “Logo na 1ª Invasão, os lourenses foram vítimas de pilhagem, ficaram sem os seus bens e sabe-se que, para terem mais alguns meios de subsistência, algumas famílias faziam as sementeiras à noite, porque se constasse que havia reservas de cereais seriam, de imediato, requisitadas para consumo das tropas inglesas e franceses.” Florbela Estêvão revela que o confronto com os franceses assumiu outras formas, nomeadamente através da literatura de cordel, maioritariamente clandestina e extremamente agressiva face à opressão francesa. O interesse de Loures nas questões relacionadas com a participação civil no processo de construção das Linhas de Torres torna este assunto no tema do Centro Interpretativo, a construir em Bucelas, localidade com maior potencial turístico no concelho.

Nota-se no trabalho que a Câmara tem vindo a desenvolver a preocupação em agir bem e não em agir depressa. Para além disso, “Loures tem procurado inovar”, diz Florbela Estêvão, “é fundamental promover a biodiversidade. Temos que procurar o equilíbrio entre a preservação das estruturas, a facilitação de leitura ao visitante e a promoção da interpretação tendo sempre a vertente ambiental como pano de fundo.”

Mafra: a importância do Palácio

A norte de Loures está Mafra; é para lá que nos dirigimos. A conversa com Ana Catarina Sousa, arqueóloga da Câmara Municipal, começa com a estadia da Família Real, na primeira invasão: “No Palácio, entre 1805 e 1807 esteve aqui a residir com a família o príncipe regente D. João. Depois, na 1ª Invasão, o palácio foi ocupado por Loison, o Maneta, célebre pela sua dureza e que deixou marcas da sua presença. Foi em Mafra que se deu uma das primeiras sublevações populares e a 26 de Janeiro de 1808 foi aqui executado Jacinto Correia, o primeiro português que se revoltou contra os franceses. Ficou célebre a sua frase: ‘Se todos os portugueses fossem como eu, não ficaria um francês vivo’. Durante a 3ª Invasão serviu de sede aos engenheiros que estavam a construir os fortes, foi hospital de Campanha e o local escolhido para, a 7 de Novembro de 1810, se comemorar a vitória, num jantar em que participou o futuro Duque de Wellington, Beresford, o Marquês La Romana e a regência portuguesa.”

Para a história fica também o sistema de comunicações usado na 3ª Invasão. E Mafra está-lhe intimamente ligado, já que o Palácio de Mafra tinha, ainda antes das Invasões Francesas, um telégrafo montado nos telhados, sistema português criado por Francisco António Ciera e que permitia comunicar com Lisboa. “Do telégrafo inglês, idealizado por Wellington com base no sistema de comunicação naval, a primeira e única réplica que existe está na Serra do Socorro. São precisos dez homens para montar o telégrafo. Tem sido frequentemente referido que a mensagem demorava sete minutos de Torres Vedras a Lisboa, mas actualmente pensa-se que não podia ser assim tão rápido”, conta Ana Catarina Sousa.

Actualmente, Mafra tem apostado na recuperação de alguns fortes, nomeadamente o Forte do Zambujal, perto da Senhora do Ó, na Carvoeira/Ericeira, e no Forte da Feira, no centro da Malveira e nas recriações históricas. “Impressiona a adesão das pessoas. Tem sido extraordinária. A comunidade local está muito envolvida; os figurantes são voluntários e, na sua esmagadora maioria, é gente residente em Mafra”, refere Ana Catarina Sousa.

Sobral de Monte Agraço: terra de quartéis-generais

O quinto e penúltimo ponto de passagem da Itinerante é o Município de Sobral de Monte Agraço, onde nos encontramos com Sandra Oliveira e Júlia Leitão para falar sobre as histórias da terra relacionadas com as Invasões. O Forte do Alqueidão é o primeiro tema de conversa. “Há oito fortes no concelho do Sobral de Monte Agraço, mas o Forte do Alqueidão, pela geografia e altitude a que se encontra, que possibilita avistar do rio Tejo ao Oceano Atlântico e permitia estabelecer contacto entre a 1ª Linha, da qual fazia parte, e a 2ª, assumiu durante o período da ocupação das Linhas a posição mais importante”, começa por explicar Sandra Oliveira, que prossegue: “a singularidade das Linhas está exactamente no seu carácter dissuasor. Imagine-se o que terão sentido os franceses, quando aqui chegaram e se depararam com um exército bem fortificado e bem armado. Certamente impunha respeito!”. E conclui: “Essa poderá ser a razão para não ter havido uma grande batalha e também a razão pela qual, durante muito tempo, não se tenha dado o devido valor às Linhas de Torres. Felizmente a situação alterou-se e, hoje em dia, as pessoas percebem que a espectacularidade está nas próprias Linhas.”

O nível “intimidatório” das Linhas justifica que, neste concelho, haja apenas registo de dois breves recontros: o primeiro, a 12 de Outubro de 1810, quando a guarda avançada do VIII Corpo de Junot atacou os postos avançados de Spencer na vila do Sobral e dois dias depois, em Seramena, uma pequena localidade entre o Sobral e o Alqueidão, o segundo, também sem grandes consequências.

Mas a história de Sobral de Monte Agraço na 3ª Invasão Francesa não se resume apenas à ocupação dos seus fortes e a estas escaramuças. Aqui estava instalado o centro estratégico, através dos quartéis-generais de Arthur Wellesley, na Quinta dos Freixos, em Pêro Negro e de William Carr Beresford, em Casal Cochim, ambos na freguesia da Sapataria. “São os dois relativamente perto da saída da auto-estrada A8. São propriedade privada, embora as fachadas dos edifícios possam ser observadas por quem ali passa e o município tenciona colocar uns painéis informativos para ajudar a interpretar os locais”, conta Sandra Oliveira.

Em época de comemoração do Bicentenário das Linhas, o município de Sobral de Monte Agraço, apostou, como seria de esperar, no Forte do Alqueidão, alvo de várias acções de reabilitação. Também os fortes do Machado e do Simplício sofreram intervenções ao nível de limpeza de vegetação, assim como a estrada militar que foi restaurada e reservada a acesso exclusivamente pedonal. Segundo Sandra Oliveira, “todas estas estruturas são agora visitáveis, integrando o Circuito do Alqueidão e a Grande Rota (GR 30) das Linhas de Torres.”

Está na hora de partirmos para a Arruda dos Vinhos e, por que não com um desvio ao Forte do Alqueidão! A vista é deslumbrante… Do Tejo ao Atlântico!

Arruda dos Vinhos: Entre vinhedos e paz

E, por fim, a Itinerante chega à calma e pacata vila de Arruda dos Vinhos. Aqui respira-se paz. O encontro com Paula Ferreira Sousa e Jorge Lopes, da Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos, revela-nos muitas histórias curiosas sobre o local em tempo de Invasões. A conversa inflecte, desde logo, para os diários do capitão inglês John Kincaid, que, em 1830, escreveu as “Aventuras na Brigada da Espingarda”. “É uma compilação de relatos. Ele reprime-se porque as próprias tropas inglesas não se portaram de acordo com a ética do cavalheiro e do militar. Quando os ingleses chegam à vila, ela está deserta, consequência da população ter fugido para trás das linhas, e são eles próprios que utilizam a ‘chave da guerra’, ou seja, a bala da espingarda. Rebentam com as fechaduras das habitações, das adegas, encontram casas limpas e organizadas, com vinho e mantimentos e comem e bebem sem parar. Depois, para garantir que os franceses não encontravam nada se lá chegassem, destruíram tudo o que não consumiram. Mais tarde vêm auto-condenar-se, porque o que destruíram nesse dia dar-lhes-ia para sobreviver durante quase um mês.”

Arruda dos Vinhos está directamente ligada à fuga das tropas gaulesas que, a 17 de Novembro, apercebendo-se do obstáculo Linhas de Torres, batem em retirada. “Aproveitam uma manhã muito nebulosa e fazem bonecos de palha com os seus uniformes. Os oficiais ingleses que estão nos postos de vigia pensam durante algumas horas que está ali um contingente francês a preparar-se para atacar, dando assim espaço de manobra ao exército francês para fugir. E quando os ingleses se apercebem do que se passa já as tropas francesas estão quase em Santarém”, explica a responsável.

Um dos episódios mais caricatos e misteriosos que aconteceu em Arruda dos Vinhos remete para o roubo do cadeiral de prata de Nossa Senhora da Salvação. Existem várias versões para o sucedido, mas uma revela que os franceses terão levado a cadeira de prata. “Nada garante que tenham sido os franceses a levar o cadeiral, mas sabemos que na retirada foram levadas algumas coisas, quer pelos franceses quer pelos ingleses. Mas quando se fala nas Invasões Francesas a população tem por tendência dizer que foram os franceses que roubaram a cadeira da Nossa Senhora da Salvação”, diz Paula Ferreira Sousa.

Paula Ferreira Sousa e Jorge Lopes não têm dúvidas ao afirmar que as Linhas de Torres Vedras são “um património único no mundo, não só do ponto de vista da própria arquitectura mas pelo que ele congrega do ponto de vista histórico. De alguma forma, este património foi o responsável pela mudança no rumo da história. Foi o início do fim de Napoleão para todos os efeitos.” Por isso é determinante divulgá-lo e preservá-lo. E esse tem sido o trabalho feito em Arruda dos Vinhos: foram recuperados parcialmente os fortes do Cego e da Carvalha, por onde passa a GR 30, assim como as áreas envolventes e algumas estradas militares. “Há um terceiro forte, o do Paço, que não faz parte da Rota, mas que levou a que se optasse por criar um pequeno percurso a passar pelo local. O Forte do Paço coincide com uma estação arqueológica, o Sítio Arqueológico do Castelo, que é um povoado de grande interesse do ponto de vista arqueológico”, concluem.

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E assim concluímos a nossa viagem pelos seis concelhos onde foram erguidos redutos para defender Lisboa das Invasões Francesas. Agora é a sua vez de partir à descoberta. Se ainda não conhece a zona, ou se a conhece mal, vai, certamente, ficar surpreendido com a beleza da paisagem, a simpatia das populações e o excelente trabalho que estes municípios têm vindo a desenvolver na defesa de um património único, nomeadamente através do projecto inter-municipal “Rota Histórica das Linhas de Torres”. E quando estiver num dos fortes, olhe à sua volta… Reconheça a visão de quem idealizou este sistema defensivo e homenageie a coragem e o esforço de quem o construiu e de quem o defendeu. É mesmo uma das mais extraordinárias obras de engenharia militar, a nível mundial. Desfrute e divulgue-a!

Versão completa na Revista ITINERANTE Especial 2010 – Linhas de Torres Vedras

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