Ilha do Pico: Senhor Bom Jesus Milagroso. Símbolo da diáspora açoriana

Estou maravilhado com a beleza do Pico! É a primeira vez que aqui venho e estou impressionado! Por muitas imagens que se tenha visto, por muito que se tenha lido nada consegue descrever a sensação de estar defronte da montanha do Pico. É imponente! E é mesmo uma montanha “alta”… Desde que entrei no barco, no porto da Horta, há uns quinze minutos, já lhe tirei mais de vinte fotografias… É fotogénica sem dúvida! São aquelas nuvens que a cortam quase a meio que nos atrai. Vitorino Nemésio chamou-lhe “céu de algodão sujo”… Tinha razão. O cume parece suspenso no céu. Nemésio também dizia que a Horta era “um camarote de frente para aquele palco de todo o ano”. No barco sinto que estou na 2.ª plateia mas o palco mantém a grandiosidade e os nossos olhos não se desviam na expectativa de ver entrar os atores. Aguardemos… O dia está primaveril mas receio tempo invernoso à nossa espera no porto da Madalena. Aproximam-se umas nuvens bem escuras. Há quem diga que, nos Açores, as quatro estações acontecem num só dia. É o que parece estar para acontecer hoje.

Não choveu à nossa chegada. As nuvens, assim como chegaram, partiram: depressa! Quem nos esperava era o Padre Marco Martinho, reitor do Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus Milagroso, situado a 15km da Madalena, na freguesia de S. Mateus. Este ano de 2012 é ano de festa para o Santuário: comemoram-se 150 anos de início do culto ao Senhor Bom Jesus Milagroso e 50 anos da elevação da Igreja Paroquial de São Mateus a Santuário. Venha até cá. Vale a pena e, já agora, se puder, faça-o no dia 6 de agosto, o dia da romaria e junte-se aos milhares de romeiros que de todos os cantos da ilha e das outras ilhas açorianas, sobretudo as do Grupo Central, aqui vêm. A romaria do Senhor Bom Jesus Milagroso é a mais importante romaria deste grupo de ilhas.

Quem também marca forte presença na romaria são os emigrantes açorianos. Muitos aproveitam o seu mês tradicional de férias para aqui virem dar graças por estarem de regresso à sua terra amada e fazer votos para, daí a um ano, voltarem. E há motivos para esta relação tão próxima. Na opinião do Padre José Carlos Simplício, antigo pároco de S. Mateus, publicada num pequeno artigo, a devoção ao Senhor Bom Jesus Milagroso “será talvez a que mais andou nos vaivéns da emigração portuguesa”. Tudo começou com emigrantes nortenhos a levarem a representação do Cristo doloroso – Senhor Ecce-Homo ou Senhor da Cana Verde – para o Brasil, onde se difundiu assumindo o título de Senhor Bom Jesus. Foi na vila costeira de Iguape, no estado de São Paulo, que Francisco Ferreira Goulart, um imigrante natural de S. Mateus, se tornou devoto e decidiu, no regresso à ilha, em 1862, adquirir a escultura para a oferecer à sua paróquia de nascimento.

Rapidamente o culto se espalhou; a outras paróquias da ilha do Pico, a outras ilhas do arquipélago, aos Estados Unidos da América – tanto na costa leste, em New Bedford e Newport, como na longínqua Califórnia, onde é mais sentida a presença de imigrantes açorianos idos dos grupos central e ocidental – e ao Canadá, na zona de Ontário.

Extraordinário percurso: do norte de Portugal para o Brasil, daí para a ilha do Pico e daqui para outras ilhas açorianas e para o continente americano! O culto ao Senhor Bom Jesus Milagroso extravasa fronteiras; não é um culto local, é um culto que liga o Pico ao Mundo; basta que aí esteja um picoense.

Comentários

  • Ler a reportagem das comemorações do centenário publicadas no Correio da Horta em Agosto de 1962.

  • renato ávila / 27-07-2012 / 9:08

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