Fazer-se à estrada: Um estudo sobre as motivações dos peregrinos a Fátima e a Santiago de Compostela

O que leva todos os anos centenas de milhares de peregrinos a percorrer a pé os caminhos de Santiago de Compostela e de Fátima?

Para tentar compreender este “fenómeno” um grupo de investigadores sediado na Universidade de Oxford – psicólogos, teólogos e historiadores – entrevistou centenas de peregrinos ao longo dos caminhos que levam a Fátima e a Compostela e concluiu que a Procura de Sensações e a Comunhão com os Outros são as duas motivações que mais diferenciam os peregrinos a Santiago de Compostela dos peregrinos a Fátima.

Uma das maiores discrepâncias regista-se ao nível da Procura de Sensações, factor relacionado com as motivações mais profanas e “turísticas”, muito mais importante para quem se desloca a Compostela do que para quem vai a Fátima. Enquanto a peregrinação a Compostela parece motivar muitos peregrinos que procuram aventura e lazer – e que vêem essas razões como motivações legítimas para fazer o Caminho – os peregrinos que se dirigem a Fátima desvalorizam esse tipo de razões porque consideram que desvirtua a natureza essencialmente religiosa ou espiritual daquela experiência.

A Comunhão com os Outros foi o outro factor onde encontrámos grandes diferenças. De facto, esta é a segunda motivação mais importante para os peregrinos de Fátima, mas a menos importante para os de Santiago. A nossa própria experiência como peregrinos confirmou que o convívio, a entreajuda e a partilha de experiências são determinantes para os peregrinos de Fátima, e que os momentos mais marcantes e emocionantes do percurso são caracterizados por actividades em grupo (de oração, de festa, de celebração litúrgica, de refeições, etc). Pelo contrário, muitos dos peregrinos de Santiago fazem-se ao Caminho para estar “sozinhos, consigo próprios” e procuram que o percurso físico se reflicta num percurso interior de auto-análise e reflexão, ou então de proximidade com a natureza e o meio ambiente e não tanto com os outros peregrinos.

Estas conclusões, embora provisórias e fragmentárias, permitem-nos ter uma ideia mais clara da forma como os peregrinos a Fátima e a Compostela reflectem as características da religiosidade contemporânea. Compostela é uma peregrinação que renasceu de mãos dadas com as novas espiritualidades, onde aspectos como o individualismo e a procura interior são fulcrais, enquanto a peregrinação a Fátima parece continuar assente nas formas tradicionais de espiritualidade, em que o caminhante procura chegar mais perto de Deus, aprofundar a sua fé ou orar com mais fervor.

Artigo de Pedro Soares. Este estudo é financiado por uma bolsa de investigação da Fundação Bial.

Versão completa na Revista ITINERANTE n.º 3

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