- "El-Rei conservou-se sempre de pé dentro da barca até fora do porto" (in José Jacob Bensabat, A Verdade dos Factos)
- Foi do mirante de Santa Marta que António Batalha Reis viu o embarque da Família Real
“Foi do mirante do Parque de Santa Marta que segui, sôfrego de curiosidade, o embarque real. Imagens tremendas que se me gravaram na retina imperecivelmente. O 5 de Outubro foi um acontecimento político que me perturbou muito, embora eu já estivesse um tanto preparado, porque, depois do assassinato do Rei e do Príncipe, a coisa pública passara a ter para mim algum significado, embora confuso. Já sabia que um rei podia morrer e que, nesse caso, era substituído por outro rei; já sabia que era possível haver atentados malévolos e mortíferos; já sabia que podia haver desordem… mas a polícia repunha tudo na ordem – pelo menos assim tinha sido depois do assassinato do Rei D. Carlos com a polícia a fazer muitos presos e a matar os assassinos – e a vida continuava.
Mas o que não podia admitir é que fosse possível expulsar o Rei, como a Mme. Ferryt ou a Melle. Pauline, as minhas professoras da escola, faziam pondo fora da aula os meus colegas mal comportados. Para mim, o Rei era bem compor-tado e intangível porque perfeito. Mas havia quem não pensasse assim…
Nesse ano, nós ainda estávamos na Ericeira quando chegou a notícia: ‘em Lisboa rebentou a revolução’, ‘há centenas de mortos’, ‘o Palácio Real já foi bombardeado’. A excitação ia subindo de tom, até que, no dia seguinte, de manhã, correu a voz de que a Família Real estava em Mafra e vinha embarcar na Ericeira. De facto, desde cedo, pairava ao largo o iate D. Amélia, tanto quanto possível próximo de terra. Que agitação. Ao Castro Pereira foram pedidos cavalos para emissários irem a Mafra com as informações de que tudo estava pronto para o embarque (eu vi os cavalos, um branco e um alazão, que eu conhecia de os ver todos os dias).
Na Praia do Peixe estavam de proa ao mar duas barcas da armação com as respectivas companhas – também as vi das Ribas.
A efervescência na população era grande, a Ericeira estava coalhada de gente nas ruas, corriam boatos de um atentado contra o jovem rei D. Manuel.
Os Pais e nós, miúdos, fomos para Santa Marta, onde do mirante se via a Praia do Peixe. Estou a ver tudo, como então vi: o cortejo descendo a rampa norte, o rei de escuro, os vestidos claros das rainhas, D. Maria Pia e D. Amélia, mais senhores e senhoras do exíguo séquito, com mais alguns que ali se juntaram, e bastante povo rodeando-os e em que imensas mulheres choravam.
O Rei embarcou numa das barcas e as rainhas na outra. O mar estava também agitado e estas operações não foram fáceis. Depois fizeram-se ao mar, direitos ao iate.
Descrevo estes acontecimentos servindo-me, simplesmente, da minha memória e recordação pessoal. Há um livro da autoria do então capitão do porto que, como testemunha e interveniente, relata o acontecimento com pormenores que me escapam.”(Escrito em 1979)

