Ericeira: Terra do Embarque

António Batalha Reis (1901-1982), no dia 5 de Outubro de 1910, estava de férias na Ericeira. Ainda não tinha 10 anos, mas não se esqueceu do que viu. Muitos anos mais tarde, já reformado, registou em dezenas de blocos os momentos marcantes da sua vida. O embarque da Família Real foi um deles:

“Foi do mirante do Parque de Santa Marta que segui, sôfrego de curiosidade, o embarque real. Imagens tremendas que se me gravaram na retina imperecivelmente. O 5 de Outubro foi um acontecimento político que me perturbou muito, embora eu já estivesse um tanto preparado, porque, depois do assassinato do Rei e do Príncipe, a coisa pública passara a ter para mim algum significado, embora confuso. Já sabia que um rei podia morrer e que, nesse caso, era substituído por outro rei; já sabia que era possível haver atentados malévolos e mortíferos; já sabia que podia haver desordem… mas a polícia repunha tudo na ordem – pelo menos assim tinha sido depois do assassinato do Rei D. Carlos com a polícia a fazer muitos presos e a matar os assassinos – e a vida continuava.

Mas o que não podia admitir é que fosse possível expulsar o Rei, como a Mme. Ferryt ou a Melle. Pauline, as minhas professoras da escola, faziam pondo fora da aula os meus colegas mal comportados. Para mim, o Rei era bem compor-tado e intangível porque perfeito. Mas havia quem não pensasse assim…

Nesse ano, nós ainda estávamos na Ericeira quando chegou a notícia: ‘em Lisboa rebentou a revolução’, ‘há centenas de mortos’, ‘o Palácio Real já foi bombardeado’. A excitação ia subindo de tom, até que, no dia seguinte, de manhã, correu a voz de que a Família Real estava em Mafra e vinha embarcar na Ericeira. De facto, desde cedo, pairava ao largo o iate D. Amélia, tanto quanto possível próximo de terra. Que agitação. Ao Castro Pereira foram pedidos cavalos para emissários irem a Mafra com as informações de que tudo estava pronto para o embarque (eu vi os cavalos, um branco e um alazão, que eu conhecia de os ver todos os dias).

Na Praia do Peixe estavam de proa ao mar duas barcas da armação com as respectivas companhas – também as vi das Ribas.

A efervescência na população era grande, a Ericeira estava coalhada de gente nas ruas, corriam boatos de um atentado contra o jovem rei D. Manuel.

Os Pais e nós, miúdos, fomos para Santa Marta, onde do mirante se via a Praia do Peixe. Estou a ver tudo, como então vi: o cortejo descendo a rampa norte, o rei de escuro, os vestidos claros das rainhas, D. Maria Pia e D. Amélia, mais senhores e senhoras do exíguo séquito, com mais alguns que ali se juntaram, e bastante povo rodeando-os e em que imensas mulheres choravam.

O Rei embarcou numa das barcas e as rainhas na outra. O mar estava também agitado e estas operações não foram fáceis. Depois fizeram-se ao mar, direitos ao iate.

Descrevo estes acontecimentos servindo-me, simplesmente, da minha memória e recordação pessoal. Há um livro da autoria do então capitão do porto que, como testemunha e interveniente, relata o acontecimento com pormenores que me escapam.”(Escrito em 1979)

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