- Salvaterra do Extremo - Igreja Matriz
- Xarza-la-Mayor
- Salvaterra do Extremo
Muitas localidades da raia beirã têm nomes estranhos, mas um destaca-se: Salvaterra do Extremo! Está no extremo, na ponta, no fim. Estar no extremo é estar mais longe, mais afastado, mais isolado… Como será viver no fim? Que histórias se contarão, serão histórias extremas, no limite? E estando no extremo está mais próximo do “outro lado”, de Espanha!
Partimos à descoberta… a primeira surpresa surge quando, ao virar da curva, se vê Salvaterra do Extremo, na encosta de um monte. Salvaterra do Extremo é grande! Eu, pelo menos, não esperaria encontrar tanto casario. E tem um ar desempoeirado! O dia também está bonito, o que ajuda à descoberta.
À nossa espera está Ramiro de Oliveira Rodrigues, membro da Associação Cultural, Recreativa e Social de Salvaterra do Extremo, e João Nunes, da Turismo de Natureza, uma valência do Gabinete de Turismo da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova, responsável pela marcação e organização de percursos pedestres no concelho. Apresentações feitas, é tempo de iniciarmos a caminhada até ao rio Erges. Somos avisados que, provavelmente, não vai dar para passar para o outro lado. O rio corre “gordo” e deve ser impossível atravessá-lo a pé. Como faziam os contrabandistas quando isto acontecia? “Quando o rio enchia, os contrabandistas tinham sempre alguém na outra margem, em locais combinados, pronto a receber a corda que lhe era lançada, para poderem usar um sistema de roldanas”, elucida o Sr. Ramiro. Manobra arriscada; nunca houve percalços? “Claro que sim. No início dos anos 70, afogou-se um rapaz daqui, que estava no contrabando.” Ramiro de Oliveira Rodrigues continua a liderar o pequeno grupo, caminhando sem dificuldade, lesto. Fico perplexo quando me diz que está quase a bater os setenta anos. Não é possível! A facilidade com que salta de pedra em pedra… Chegámos à margem do Erges. Confirma-se que não vai ser possível passar: as grandes chuvadas dos últimos dias fizeram aumentar muito o caudal do rio. Vamos ter que regressar a Salvaterra, apanhar o carro, ir até Zarza-la-Mayor e fazer a parte espanhola do trilho, em sentido inverso. A subida não é suave. Salvaterra é grande. O Sr. Ramiro concorda: “Tem muitas casas… mas poucas pessoas! Já aqui viveu muita gente. Ganhou foral em 1229 e foi sede de concelho até 1855. E era um concelho vasto…” E o contrabando? “O contrabando faz parte da história de Salvaterra! Enquanto houve fronteira, sempre aqui existiu o chamado contrabando de subsistência, da pequena mercadoria, feito pelas populações dos dois lados. Mas também havia um contrabando em maior escala; por exemplo, nos séculos XIV e XV, era controlado pelos alcaides-mores e pelos comendadores.” E vieram as Invasões Francesas… “As Invasões Francesas foram devastadoras para esta zona. Junot e Massena foram impiedosos e destruíram muita coisa. Esse tempo também foi pródigo em contrabando, por não acatarmos as imposições do Bloqueio Continental. Os espanhóis vinham cá buscar os têxteis ingleses. O contrabando dos têxteis para Espanha, aqui nesta região, continuou até finais dos anos vinte do século passado.”
Estamos em Espanha. Começamos a fazer a outra metade do trilho. Temos que ser rápidos pois já estamos a meio da tarde e os dias estão curtos. Passamos à ilharga do castelo de Peñafiel. Paisagem deslumbrante. Como é viver próximo de Espanha? Que relação há com Espanha? “Já foi muito conflituosa… Em tempos de guerra com Espanha, dizia-se que havia uma outra, particular, entre Salvaterra e Zarza. Atualmente as coisas são muito diferentes; há uma ligação muito forte entre os dois povos: há casamentos, há interesses comerciais e há a História, claro… boa e má!” Acabamos a marcação do trilho já ao lusco fusco. A Guerra Civil Espanhola teve grande impacto nesta zona… “Sem dúvida”, confirma o Sr. Ramiro, “A vida em Espanha não estava nada fácil; eles tinham falta de quase tudo, o que também fomentava o contrabando. Levava-se farinha, pão, azeite, gado… Com o fim da guerra desenvolveu-se o contrabando de café. Grupos de 10, 12 homens, durante a noite, carregados com 25 a 30kg, saíam daqui para Zarza-la-Mayor, Ceclavin, Acehuche e outras localidades espanholas. Foi o tempo áureo daquilo que conhecemos como o contrabando dos pobres! Também havia mulheres no contrabando; faziam-no de dia, levavam cargas mais leves, com produtos diversos e não iam mais além de Zarza; por vezes, vendiam de porta em porta.” Interessante!
Ainda não são seis da tarde e já é quase noite. Entramos num café, no centro de Zarza, para bebermos “una caña”. Conversamos trivialidades. Prometo voltar. E virei com todo o prazer!


