Convento de Balsamão, onde se ouve o silêncio…

Comecemos pelo princípio. E no princípio está a lenda. E como todas as lendas, esta também começa por era uma vez! Assim… Era uma vez… há muitos, muitos anos atrás, vivia lá bem no alto do monte Carrascal, um rei mouro, tirano e cruel que obrigava os cristãos a pagarem elevados impostos e, para ainda mais os humilhar, impunha o “imposto das donzelas”: era com o rei que as donzelas passavam a primeira noite de casadas.

Durante anos, os súbditos, impotentes às atrocidades do rei, viveram em pesadelo. Mas um dia, um jovem corajoso e valente decidiu pôr cobro à situação e prometeu à noiva que ela não se sujeitaria a tal vexame. Temendo pela vida do seu amado, ela pediu proteção a Nossa Senhora e prometeu erguer-lhe uma capela se o noivo saísse ileso de tão difícil empreitada.

No dia do casamento tudo corria naturalmente quando, no momento de prestar vassalagem ao rei, o jovem, ao cumprimentá-lo, puxou do punhal e matou-o. Num ápice, todos os outros jovens, cúmplices, desembainharam as suas facas e punhais e atacaram os mouros que ali estavam. Os gritos lancinantes foram ouvidos pelos outros mouros que de todo o lado surgiram para vingar a morte do seu rei. A batalha tornou-se desigual; feridos e cansados, os jovens cristãos começavam a esmorecer, quando uma Senhora vestida de branco apareceu e lhes ungiu as feridas com o bálsamo de um vaso que trazia na mão. Os jovens imediatamente se sentiram melhor e ganharam alento, surpreendendo os mouros que fugiram monte abaixo, desmoralizados e impotentes perante a investida. À sua espera estava a população que, alertada para o que se passava, tinha pegado em armas para ajudar o jovem noivo. Sem qualquer hipótese de fuga, os mouros sucumbiram, pondo fim a um tempo de injustiça e terror. No local onde estava o castelo mouro construiu-se uma pequena ermida, cumprindo-se a promessa feita pela jovem donzela. Em homenagem à Senhora que os tinha ajudado, decidiram chamar à ermida de Nossa Senhora de Bálsamo na Mão, que depois passou a ser Nossa Senhora de Balsamão, e ao local onde os mouros foram chacinados, de Chacim, a localidade próxima de Balsamão.

Atualmente o Convento de Balsamão pertence à Congregação dos Marianos da Imaculada Conceição, e na sua origem está Frei Casimiro Wyszynski, um padre polaco que, em meados do século XVIII, veio para Portugal com o objetivo de aqui fundar a ordem. Na altura, existia em Balsamão uma comunidade de eremitas sem Regra própria, que aceitou a presença de Frei Casimiro, chegado a 6 de setembro de 1754, fundando-se aí a primeira comunidade dos Marianos em Portugal. Frei Casimiro faleceu, vítima de malária, a 21 de outubro de 1755, mas a Ordem manteve-se ativa em Portugal até 1834, ano em que foi expulsa pelo Governo liberal. A propriedade de Balsamão foi leiloada, passando para a posse de particulares. O convento foi-se arruinando, mas a Igreja continuou a ser cuidada pela paróquia de Chacim. Em 1954, os Irmãos Marianos regressaram a Balsamão e, muito recentemente, em 2010, foram inauguradas as obras que renovaram o Santuário. A Igreja sofreu profundas modificações assim como a área envolvente. Há quem procure o Paraíso na Terra. Balsamão (ainda) não o é. Mas é o local onde se ouve o silêncio…

Comentários

Comentar

Relacionados

  • Ilha do Pico: Senhor Bom Jesus Milagroso. Símbolo da diáspora açoriana


    Estou maravilhado com a beleza do Pico! É a primeira vez que aqui venho e estou impressionado! Por muitas imagens que se tenha visto, por muito que se tenha lido nada consegue descrever a sensação de estar defronte da montanha do Pico. É imponente! E é mesmo uma montanha “alta”…

    ver mais »

  • Em Terras do Demo há uma Lapa com lenda, história e fé!


    Chegámos! Está frio! De Viseu aqui, 50 quilómetros de estrada simpática, o termómetro do carro foi marcando o nosso desconforto: passou dos 22º para os 13º. E ainda é só hora de almoço, como será à noite? O céu está cinzento; não augura nada de bom…

    ver mais »

  • Cristo Rei, com Lisboa e o Tejo a seus pés


    Garanto: o Cristo Rei, em Almada, é o local ideal para admirar a beleza de Lisboa. E não é nada difícil cá chegar. Do centro de Almada, a pé, de transporte público ou em veículo próprio, dez, quinze minutos depois de partir, estamos a entrar no Santuário de Cristo Rei, com Lisboa a nossos pés. São os carros na Ponte sobre o Tejo, os cacilheiros no rio, é a azáfama de uma grande cidade desfrutada de um local bem sossegado, que nos transmite paz.

    ver mais »

  • Brotas: E do osso da vaca se fez a imagem de Nossa Senhora


    Brotas… nome estranho! Procuro a sua origem etimológica e as respostas são inconclusivas. Terá que ver com a água que brota da nascente localizada atrás do Santuário? Ou teria que ver com a abrótea, a planta que cobria a zona? Ou tem que ver com…?

    ver mais »

  • Loulé: Viva a Mãe Soberana! Viva!


    António, João, Fernando, Xavier, Luís, Armando, Tiago e Horácio são, este ano, os oito “homens do andor”! Durante quase três horas, eles têm a honra e o privilégio de transportar a imagem de Nossa Senhora da Piedade, desde o largo onde está a estátua de homenagem a Duarte Pacheco até ao Monte da Piedade, onde fica a pequena ermida.

    ver mais »

  • Avessadas e Menino Jesus de Praga: a comunhão perfeita!


    No início, foram casamentos e dotes. A nobre espanhola D. Isabela Manrique de Lara y Mendoza oferece à filha Maria Manrique, como presente do seu casamento com o nobre checo Vojtech de Pernstejn, no ano de 1555, uma pequena estátua em cera, com 48 cm de altura, representando Menino Deus, com a mão direita erguida em sinal de benção e a mão esquerda a segurar um globo.

    ver mais »