A Igreja Matriz de Santiago do Cacém

Não se intimide com a subida. É íngreme e deve ser feita com cuidado – as pedras puídas pelo tempo e pelas gentes são traiçoeiras – mas quando se atinge o topo, o esforço dispendido é duplamente compensado: do adro, a vista arrebata, a paisagem esmaga; na igreja “respira-se” paz, solenidade. O mesmo espírito que se “vive” nas igrejas galegas que estão ao longo do Caminho. Influência do apóstolo? Talvez… provavelmente!

E sente-se o peso da História. Por aqui passam, desde a Idade Média, peregrinos a caminho de Compostela. Uns vinham do Promontorium Sacrum (Promontório de Sagres), outros vinham de Espanha e atravessavam o Alentejo, zona mais plana e segura que a meseta ibérica. Alguns eram gente importante, mas a maioria era gente anónima, despojada de bens, com lugar “reservado” na missa para trás da coluna que ainda tem gravado na pedra PAUCI, pobres, em latim. Perto da entrada, para que os odores pestilentos não incomodassem as famílias nobres da zona – como os Murzelo de Mendonça que têm campa sepulcral em lugar de destaque.

O templo foi construído no século XIII e beneficiado nas primeiras décadas do século seguinte, a expensas da Princesa Vetaça Lezcaris, aia da Rainha Santa Isabel, detentora da comenda de Santiago do Cacém entre 1310 e 1336. Sofreu novas intervenções em 1530, 1704 e entre 1796 e 1830. Esta última, consequência do terramoto de 1755, modificou a sua orientação – a entrada passou a ser feita pelo local onde estava a capela-mor – e aumentou-a.

Ao longo dos séculos XIX e XX a igreja passou por momentos conturbados – dois incêndios de alguma dimensão, o último dos quais, em 1912, levou à transferência da paróquia para a Igreja da Misericórdia – mas foram sendo feitas obras e actualmente a igreja está muito bonita e foi classificada, em 1910, Monumento Nacional.

Em 2002, ocorreu a última intervenção: num esforço conjunto da Câmara Municipal de Santiago do Cacém e da Diocese de Beja, foi criado o núcleo museológico do Tesouro da Colegiada onde pode ver o relicário do Santo Lenho – uma obra notável que também pertencia a D. Vetaça Lezcaris – e um espólio riquíssimo destinado a servir sobretudo cerimónias litúrgicas.

Agora sente-se, descanse e aprecie as peças expostas na Igreja Matriz.

E já sabe: quando for a Santiago do Cacém não perca a oportunidade de visitar a Igreja Matriz. Valeu a pena, não valeu?

(in Revista ITINERANTE n.º 3)

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