A Guerra Peninsular – Uma perspectiva portuguesa - A opinião de Clive Gilbert

No final do século XVIII, Portugal encontrava-se numa situação difícil e aparentemente inultrapassável na sequência da decisão de enviar, em 1793, uma força expedicionária em auxílio de Espanha, ao abrigo do Tratado do Pardo, de 1778, para combater os exércitos revolucionários franceses na fronteira hispano-francesa. Espanha e Portugal foram derrotados na Campanha do Rossilhão (1793-95) e, no final, Portugal foi traído por Espanha, que assinou um tratado de paz com França em separado em Basle em 1795. Portugal aprendeu com esta infeliz expedição e começou a traçar planos para reorganizar o seu exército.

Embora Portugal tivesse ajudado o seu velho aliado durante este período, nomeadamente enviando a Marinha em auxílio de Nelson no Mediterrâneo, a França exercia crescente pressão sobre Portugal para que este o abandonasse. Por fim, forçou a Espanha a invadir Portugal em 1801, após a recusa deste de fechar os seus portos aos navios ingleses. Apesar de Portugal ter derrotado as forças invasoras espanholas no norte e no sul do país, a Espanha acabou por conquistar o território de Olivença, no Alentejo, uma área que até hoje permanece espanhola.

Pese embora esta difícil situação, o Príncipe Regente e futuro rei D. João VI jogou magistralmente ao adiar as decisões, tudo prometendo mas nada concedendo. De facto, o rei caminhava numa corda bamba política. Por um lado, se obedecesse a França, a Inglaterra ocuparia as colónias portuguesas, especialmente o Brasil, um importante e lucrativo mercado. A Inglaterra teria também destruído a frota naval portuguesa para que não caísse nas mãos dos franceses. Se, por outro lado, continuasse ao lado de Inglaterra, Portugal arriscava-se a ser invadido por França e a perder a sua independência.

Entretanto começavam os preparativos para transferir a Corte para o Rio de Janeiro. Havia duas razões principais para esta mudança: Impedir a captura da família real portuguesa. Ao transferir a soberania para o Novo Mundo, evitava-se a abdicação forçada do monarca, destino que haveria de ser o do rei de Espanha e impedir o aprisionamento da frota portuguesa, a quinta maior da Europa. Após Trafalgar, esta seria uma importante vantagem para Napoleão.

Os preparativos para a transferência haviam começado muitos meses antes, e a frota final de mais de cinquenta navios transportando mais de 15.000 pessoas incluindo toda a máquina do Estado para que o país pudesse continuar a funcionar no Novo Mundo, deixou Lisboa no dia 29 de Novembro de 1807. Junot chegaria demasiado tarde para executar a estratégia de Napoleão, mas seria ainda capaz de enviar para França cerca de 8.000 oficiais e homens para combaterem nos exércitos napoleónicos. Confiscou ainda todas as armas de que Portugal dispunha, deixando assim o país praticamente indefeso.

Vale a pena recordar que, sem o Exército Português (os “galos de briga” de Wellington, como ele lhes chamava) para ajudar a derrotar os franceses no Buçaco e nas restantes batalhas da Guerra Peninsular, e sem a resistente e laboriosa milícia portuguesa e os trabalhadores rurais que ajudaram a construir as Linhas de Torres Vedras num incrivelmente curto período de tempo, é bem possível que Waterloo nunca tivesse acontecido. Contudo, apesar de Portugal ter sofrido mais baixas civis e militares do que qualquer outro país europeu (cerca de 10% da sua população), não saiu bem da guerra. No Congresso de Viena Portugal foi incapaz de recuperar Olivença, e muitas das suas pretensões foram ignoradas, apesar de ter recebido algumas compensações. Embora a Inglaterra tivesse alimentado, vestido e armado parte dos militares portugueses (30.000) que tinham integrado o Exército Inglês, o preço que Portugal pagou foi muito elevado. Teve de abrir o lucrativo mercado brasileiro a estrangeiros, pelo que os comerciantes portugueses perderam negócio e lucros.

Deve também ser realçado o facto de que os oficiais do exército que acompanharam a corte para o Brasil, os que seguiram Napoleão, bem como os que foram para o exílio, pertenciam à aristocracia. Foi portanto de entre a burguesia urbana e a aristocracia mais baixa que a nova classe de oficiais foi recrutada. A seguir à guerra, estes homens integraram a nova elite social e política do país juntamente com homens de leis e comerciantes. Foram eles que lideraram o movimento que afastou o Conselho de Regência agora impopular e que conduziu o país em direcção a uma nova e mais aberta sociedade. A revolta militar de 1820 abriu caminho a uma Constituição e a um Parlamento liberal.

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Sobre o autor

Clive Gilbert

Vice Presidente da British Historical Society

(www.bhsportugal.org/tours/)

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