- No dia 29 de Novembro de 1807, Lisboa assiste, em ambiente de caos e desordem, à partida da Família Real Portuguesa para o Brasil. Acompanham-na, para além da corte, cerca de 15.000 funcionários do Estado.
Embora Portugal tivesse ajudado o seu velho aliado durante este período, nomeadamente enviando a Marinha em auxílio de Nelson no Mediterrâneo, a França exercia crescente pressão sobre Portugal para que este o abandonasse. Por fim, forçou a Espanha a invadir Portugal em 1801, após a recusa deste de fechar os seus portos aos navios ingleses. Apesar de Portugal ter derrotado as forças invasoras espanholas no norte e no sul do país, a Espanha acabou por conquistar o território de Olivença, no Alentejo, uma área que até hoje permanece espanhola.
Pese embora esta difícil situação, o Príncipe Regente e futuro rei D. João VI jogou magistralmente ao adiar as decisões, tudo prometendo mas nada concedendo. De facto, o rei caminhava numa corda bamba política. Por um lado, se obedecesse a França, a Inglaterra ocuparia as colónias portuguesas, especialmente o Brasil, um importante e lucrativo mercado. A Inglaterra teria também destruído a frota naval portuguesa para que não caísse nas mãos dos franceses. Se, por outro lado, continuasse ao lado de Inglaterra, Portugal arriscava-se a ser invadido por França e a perder a sua independência.
Entretanto começavam os preparativos para transferir a Corte para o Rio de Janeiro. Havia duas razões principais para esta mudança: Impedir a captura da família real portuguesa. Ao transferir a soberania para o Novo Mundo, evitava-se a abdicação forçada do monarca, destino que haveria de ser o do rei de Espanha e impedir o aprisionamento da frota portuguesa, a quinta maior da Europa. Após Trafalgar, esta seria uma importante vantagem para Napoleão.
Os preparativos para a transferência haviam começado muitos meses antes, e a frota final de mais de cinquenta navios transportando mais de 15.000 pessoas incluindo toda a máquina do Estado para que o país pudesse continuar a funcionar no Novo Mundo, deixou Lisboa no dia 29 de Novembro de 1807. Junot chegaria demasiado tarde para executar a estratégia de Napoleão, mas seria ainda capaz de enviar para França cerca de 8.000 oficiais e homens para combaterem nos exércitos napoleónicos. Confiscou ainda todas as armas de que Portugal dispunha, deixando assim o país praticamente indefeso.
Vale a pena recordar que, sem o Exército Português (os “galos de briga” de Wellington, como ele lhes chamava) para ajudar a derrotar os franceses no Buçaco e nas restantes batalhas da Guerra Peninsular, e sem a resistente e laboriosa milícia portuguesa e os trabalhadores rurais que ajudaram a construir as Linhas de Torres Vedras num incrivelmente curto período de tempo, é bem possível que Waterloo nunca tivesse acontecido. Contudo, apesar de Portugal ter sofrido mais baixas civis e militares do que qualquer outro país europeu (cerca de 10% da sua população), não saiu bem da guerra. No Congresso de Viena Portugal foi incapaz de recuperar Olivença, e muitas das suas pretensões foram ignoradas, apesar de ter recebido algumas compensações. Embora a Inglaterra tivesse alimentado, vestido e armado parte dos militares portugueses (30.000) que tinham integrado o Exército Inglês, o preço que Portugal pagou foi muito elevado. Teve de abrir o lucrativo mercado brasileiro a estrangeiros, pelo que os comerciantes portugueses perderam negócio e lucros.
Deve também ser realçado o facto de que os oficiais do exército que acompanharam a corte para o Brasil, os que seguiram Napoleão, bem como os que foram para o exílio, pertenciam à aristocracia. Foi portanto de entre a burguesia urbana e a aristocracia mais baixa que a nova classe de oficiais foi recrutada. A seguir à guerra, estes homens integraram a nova elite social e política do país juntamente com homens de leis e comerciantes. Foram eles que lideraram o movimento que afastou o Conselho de Regência agora impopular e que conduziu o país em direcção a uma nova e mais aberta sociedade. A revolta militar de 1820 abriu caminho a uma Constituição e a um Parlamento liberal.


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