As histórias transmitidas de pais para filhos sobre os horrores da invasão de Portugal pelos exércitos napoleónicos, não esquecendo a permanência prolongada dos exércitos britânicos, chegaram até nós. Na sua esmagadora maioria falam de resistência, emboscadas, conspirações, fuzilamentos, assaltos a quintas.
Na zona das Linhas de Torres Vedras os testemunhos são ainda muito vivos e Gonçalo Vasconcellos Guisado, representante da família proprietária das quintas da Póvoa e do Vale Corvo, no sopé da Serra do Socorro, partilhou com a Itinerante alguns dos episódios que conhece.
«Há muitas histórias que comprovam o envolvimento de populares na resistência aos franceses. Por exemplo, aqui na serra, há uma zona chamada “terra do Alferes”, em homenagem a um familiar meu, que combateu os franceses». E explica: «A Quinta do Vale Corvo está mais associada à primeira invasão; servia de abrigo estratégico e apoio logístico à resistência, enquanto a Quinta da Póvoa teve mais a ver com a terceira invasão; foi o quartel-general do segundo comandante do exército Britânico da Península Ibérica, o Tenente General Sir Brent Spencer, e do seu estado-maior, durante a defesa das linhas de Torres Vedras».
As quintas continuam na posse da família original, Barros e Vasconcellos, que tem criteriosamente conservado todo o património histórico associado, repleto de curiosas recordações e objectos do período da guerra peninsular; «mas se não fosse a minha bisavó, Maria Sofia Barreiros Cardozo de Araújo de Barros e Vasconcellos, provavelmente muitos destes testemunhos teriam desaparecido. Ela viveu até aos 100 anos, facto que, associado ao seu carácter culto, levou-a a coleccionar e preservar objectos e memórias… Mas não foram só os cuidados da minha bisavó… também resistiram porque eram utilizadas… Por exemplo, as botas de oficial superior do meu tetravô, foram usadas regularmente pelo meu bisavô, que chegou a meter-lhes meias solas…»
Contagia o entusiasmo com que Vasconcellos Guisado fala das Linhas de Torres Vedras; «elas destacam-se da generalidade dos clássicos campos de batalha europeus, por poderem ser visitadas sem necessidade de recorrer a complicadas interpretações abstractas sobre táctica militar, pois conservam ainda boa parte da estrutura física que esteve na sua génese, por entre uma paisagem deslumbrante que pouco mudou desde há duzentos anos».
E tem outros motivos para estar entusiasmado e orgulhoso: o historiador Robert Bremner encontrou nas memórias de August Schaumann, um oficial do exército britânico, uma referência bastante elogiosa a um antepassado seu. Escreveu Schaumann: «Fui ter com o Senhor Cammarata [Francisco Rodrigues Camarate] ao Gradil, o negociante de vinhos que abastecia o regimento, e que tinha o vinho mais maravilhoso que havia; o vinho branco, em especial, brilhava como ouro quando saía da torneira da sua cuba de barro.» (in On the road with Wellington: The diary of a war commissary).
É tempo de regressarmos… O dia está lindo. Que paz… Quem diria que estamos a 30km de Lisboa e que dentro de meia hora estaremos a ser engolidos por carros, prédios, semáforos, barulho… Gonçalo, não imagina a sorte que tem!…
Versão completa na Revista ITINERANTE n.º 1



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