A efémera glória de Marcos Portugal

O compositor Marcos Portugal (1762-1830), actualmente um nome quase desconhecido dos portugueses, era, no início do século XIX, um músico famoso, nomeadamente nos palcos italianos, com as suas exigentes plateias, em que as óperas de Portogallo rivalizavam com as de Rossini e Mozart.

Em 1808, aquando da 1.ª Invasão Francesa, Marcos Portugal protagonizou um episódio de que muito poucos se podem orgulhar: a sua música, com poucas semanas de intervalo, foi a escolhida para glorificar as façanhas dos arqui-rivais franceses e ingleses.

A 15 de Agosto de 1808, Junot não quis deixar de assinalar, em Lisboa, o aniversário de Napoleão Bonaparte; Marcos Portugal, à altura director do Teatro de S. Carlos, levou à cena uma nova versão da sua ópera Demofoonte, que tinha sido escrita em Milão em 1794. Algumas semanas mais tarde, agora a pedido de General Wellesley, futuro Duque de Wellington, para comemorar a capitulação dos franceses e a assinatura da Convenção de Sintra, Marcos Portugal compôs um Te Deum.

Ter estado com os dois lados da barricada acabou por ser uma glória efémera; acusado de jacobismo caiu em desgraça e partiu para o Brasil na tentativa de recuperar, junto do Rei, a honra ferida, o que conseguiu: D. João VI concedeu-lhe a comenda da Ordem de Cristo. Vítima de dois ataques de apoplexia, não regressou com a corte para Portugal, em 1821, perdendo com isso as regalias que usufruía. Veio a falecer, no Rio de Janeiro, pobre e esquecido por todos.

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