A coragem de um republicano ilustre - por Joaquim Moedas Duarte

O valor de um acto de coragem mede-se pelo risco que envolve. Por isso é incalculável o de José Relvas quando, em tempo de Monarquia – 1907 –, adere ao Partido Republicano Português. Tinha 49 anos, ascendência nobre, três filhos, um solar magnífico acabado de construir em Alpiarça, uma valiosa colecção de obras de arte e uma casa agrícola em expansão.

O que o leva a isto? É preciso percorrer o rasto deixado pela sua vida para o percebermos.

José Relvas tinha ascendência nobre pelo lado da mãe, Margarida Amália; pelo lado paterno vinha de gente da Sertã ligada à lavoura, que se havia fixado na Golegã. Foi aqui que José Relvas nasceu, em 1858. Seu pai, Carlos Relvas, grande proprietário, foi também reputado pioneiro da fotografia. Costela aristocrática e casta rural, em José Relvas, conjugaram-se admiravelmente.

A adesão ao Partido Republicano é o corolário da progressiva consciencialização de José Relvas quanto à impossibilidade de reforma da Monarquia. Em 1909, no Congresso de Setúbal, é eleito para o Directório do Partido Republicano. Chegados os dias decisivos de Outubro de 1910, os acontecimentos atropelam-se. É a persistência de Machado Santos na Rotunda e de José Relvas nas ligações entre revoltosos dispersos que se tornam decisivos para o desenlace do dia 5. Horas depois, caberá a José Relvas proclamar a República na varanda dos Paços do Concelho de Lisboa, anunciando a constituição do Governo Provisório, em que participa como Ministro das Finanças. A sua preocupação imediata é a consolidação das finanças públicas o que o leva à criação de uma nova unidade monetária, o escudo.

Foram tempos de enorme agitação. Entre os republicanos logo se desenharam linhas de fractura e de confronto permanente. José Relvas, numa perspectiva liberal conservadora, não aceita a radicalização imposta por Afonso Costa. Em Novembro de 1911 demite-se das suas funções governativas e regressa a Alpiarça. Não se alheia da política, afasta-se da pestilência dos que fizeram da política um teatro de ambições pessoais.

Regressa a Lisboa, no início de 1919, para chefiar um Governo que ele queria de salvação nacional; queima aí as últimas esperanças de regeneração política do país. Regressa definitivamente à sua Quinta, desiludido e amargurado. Ali viveu os últimos dez anos da sua vida – 1919 a 1929 – fazendo da Quinta dos Patudos uma exploração agrícola renovada e um local de encontro de artistas. Ali foi juntando uma extraordinária colecção de obras de arte. A própria casa é uma belíssima peça arquitectónica, risco de Raul Lino.

Por testamento, legou todos os seus bens ao Município de Alpiarça. A Fundação José Relvas enfrenta hoje os problemas inerentes à conservação de um edifício centenário, com um dos mais importantes espólios artísticos privados do nosso país. Visitar a Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça é uma forma de apoiar a sua existência e de homenagear o vulto notabilíssimo de José Relvas.

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Sobre o autor

Joaquim Moedas Duarte

É natural de Alpiarça e licenciado em História. Actualmente é Presidente da Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras (ADDPCTV). Colabora regularmente na imprensa regional, na área cultural.

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