À conversa com Maria Zulmira Castanheira

Itinerante: Um aspecto que impressiona quem se interessa pelas Invasões Francesas é o elevado número de britânicos que regista as suas “aventuras” em Portugal…

Maria Zulmira Castanheira (MZC): É verdade… A Guerra Peninsular, na qual se insere o importante episódio das Invasões Francesas, coincide, em Inglaterra, com o Romantismo, marcado por um impulso subjectivo para a escrita autobiográfica, para o anotar, por vezes quotidiano, das experiências particulares do indivíduo.

Que formas assumem esses relatos?

A maioria desses relatos assume a forma de cartas, diários, recordações, impressões… Trata-se de relatos escritos por militares que integraram as fileiras do exército britânico e que, porque são um testemunho de quem esteve no teatro de operações, pressupõem veracidade e, logo, credibilidade.

Mas não foram só militares a escrever, pois não?

A esmagadora maioria dos textos é da autoria de militares, mas existem alguns escritos por mulheres, familiares de oficiais britânicos, que nos dão uma perspectiva diferente dos tempos de guerra e da devastação por ela causada. São os casos do diário de Clarissa Trant, filha do oficial irlandês, Sir Nicholas Trant e do diário de Harriot Slessor, viúva de um militar escocês.

E como é que os britânicos viam Portugal?

Em termos gerais, tecem rasgados elogios à beleza e ao pitoresco das paisagens naturais, apreciam muito o clima, registam certos costumes que se lhes afiguram muitos diferentes dos seus, observam com atenção os recursos de Portugal, nomeadamente os agrícolas, avaliam as vias de comunicação e reparam no mau estado das estradas, atentam nos monumentos e nas habitações e prestam especial atenção aos hábitos religiosos católicos, que frequentemente criticam. A capital lisboeta é também alvo de descrições, normalmente pouco abonatórias; é a sujidade, o mau-cheiro, a falta de esgotos, a prática do “água-vai”, as matilhas de cães vadios que infestavam as ruas, o grande número de pedintes e vagabundos…

E os portugueses…

Quanto ao carácter dos portugueses, embora nem sempre seja retratado de modo positivo, pois não raro são considerados preguiçosos, arrogantes, incultos, hipócritas, e se faça a distinção entre os habitantes da província e os lisboetas, de que os primeiros saem mais favorecidos pela sua simplicidade e integridade, há que dizer que são frequentes os elogios à forma hospitaleira como os portugueses recebiam os militares britânicos que ficavam aboletados nas suas casas. A mulher portuguesa é também um tema com expressão nestas narrativas de militares, fazendo os autores comentários elogiosos à sua beleza e virtudes.

O interesse britânico esgotou-se nesses relatos?

Não. Antes pelo contrário… Ao longo da segunda metade do século XX muitos destes relatos foram reeditados… Interessantes são, também, os tratamentos ficcionais deste conflito bélico… Saliento Sir Arthur Conan Doyle, C. S. Forester e, mais recentemente, Bernard Cornwell com as aventuras de Richard Sharpe.

Versão completa na Revista ITINERANTE n.º 1

Comentários

  • Boa noite
    Fiquei deliciada com as palavras registadas nesta conversa. Gostaria de poder saber onde encontrar elementos sobre o papel das mulheres nas invasões francesas. Onde poderei encontrar cópia daqueles registos memorialisticos de senhoras inglesas? E dos oficiais ingleses? Agradeço encantada a informação possível. Muito cordialmente, cumprimentos Mónica F.R.

  • Monica Ferreira Rodrigues / 07-03-2010 / 16:49

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