À conversa com José Manuel Campos

Serra das Mesas, freguesia de Fóios, concelho do Sabugal. É uma manhã fria de dezembro. Está um céu azul, límpido. Comigo está José Manuel Campos, atual presidente da Junta de Freguesia de Fóios, um excelente contador de “estórias” e profundo conhecedor dos meandros do contrabando nos meados do século passado.

Está frio… Serra das Mesas… era por aqui que os contrabandistas de Fóios passavam. Sítio ideal para conversarmos…

Já viu a vista maravilhosa… a serra das Mesas é pouco conhecida. O Dr. Bernardino Henriques, um poeta nascido aqui em Fóios, chama-lhe de “serra esquecida”. Eu costumo dizer que a serra das Mesas é um tesouro por abrir. Começa-se agora a trabalhar para que a serra seja divulgada; a Câmara Municipal do Sabugal tenciona criar um Geoparque aqui no concelho e a serra das Mesas será, naturalmente, um dos aspetos mais nobres desse Geoparque.

Esta zona é deslumbrante! Aqui fica a nascente do Côa…

Na verdade a serra das Mesas é uma região marcada pela água. Nascem aqui dois rios; nós estamos junto da nascente do Côa; na outra encosta da serra, já no lado espanhol, nasce o rio Águeda. Curiosamente o Côa e o Águeda também desaguam muito próximos um do outro, no rio Douro – o Côa em Vila Nova de Foz Côa e o Águeda em Barca de Alva.

E há estas “mesas” de granito…

A serra das Mesas tem, efetivamente, características graníticas muito especiais. Estas pedras cúbicas que por aqui se veem – parece que foram feitas por mão humana, não é? –, segundo um geólogo meu amigo, José Nobre, só têm semelhanças com uma serra na Argentina.

A serra das Mesas fazia parte do dia a dia de Fóios.

Para nós é sagrada. Foi da serra das Mesas que nós, efetivamente, vivemos. A maioria dos nossos antepassados dedicava-se à agricultura e à pastorícia.

E havia o contrabando…

A serra das Mesas, em meados do século passado – anos trinta, quarenta, cinquenta, antes da emigração para França –, era trilhada diariamente por largas centenas de pessoas, portugueses, sobretudo, mas também espanhóis. Mulheres de dia, homens à noite.

As mulheres levavam alguns produtos… leite, ovos, feijão, produtos que quase podemos considerar “mimos”… às vezes umas trutas que os maridos pescavam no rio Côa.

O melhor ia para eles; nós precisávamos de quantidade, não de qualidade…

Mas além do contrabando de subsistência também havia um contrabando organizado…

Exato. Era um contrabando organizado e de enriquecimento. Veio mais tarde. E era o contrabando dos homens. Utilizavam-se cavalos para transportar o minério. Em Espanha, perto de Valverde, ainda lá estão as minas. Eram fictícias, não produziam um grama… mas até tinham casa do guarda! Os cavalos saíam do Soito carregados com 150, 200 quilos de volfrâmio, chegavam, de noite, às tais minas, descarregavam o minério e na manhã seguinte lá apareciam os camiões espanhóis a transportarem a produção de minério espanhol para as fábricas… era um negócio rentável para todos…

De vez em quando, aparecia a Guarda Fiscal ou os carabineiros… quantos guardas estavam aqui em Fóios?

Não sei… muitos! Todas as aldeias fronteiriças tinham guardas… dizia-se que eram tantos que se dessem as mãos, ao longo da fronteira, conseguiam fazer um cordão.

Que relação havia entre os guardas fiscais e os contrabandistas?

Os contrabandistas costumavam dizer em relação aos guardas fiscais: de dia, comer e beber com eles, à noite, fugir deles. Comiam uns coelhos bravos e umas trutas, bebiam uns copos, jogavam às cartas, mas à noite, na serra, quando se encontravam era como se não se conhecessem. Cada um defendia os seus interesses.

Alguma vez foi apanhado?

Não. Felizmente nunca fui preso, mas saltaram-me pelo menos duas ou três vezes, guardas e carabineiros. Uma vez, eram para aí umas 4 da manhã, estávamos muito próximos de Valverde, íamos em fila indiana, a atravessar um olival, quando fomos rodeados por carabineiros. Cada qual a fugir para o seu lado. Com a atrapalhação chocávamos com as oliveiras, tropeçávamos… larguei o carrego e consegui fugir…

Recordo-me de outra noite em que eles também saltaram e eu fiquei escondido mais de duas horas, num silvado.

E como evoluíram as coisas?

Depois veio a emigração. Os homens partiram para França. O contrabando foi reduzindo. Depois veio o Mercado Comum. Ainda se fez muito contrabando de gado, mas já não tinha nada que ver com o contrabando dos meus tempos.

Sou sincero: tenho saudades. Foram tempos de muito sacrifício; a vida era dura, difícil, mas o contrabando também nos trazia alegria. As pessoas divertiam-se, fizeram-se grandes amizades, arranjaram-se casamentos… havia movimento na região, havia jovens, a escola estava cheia de crianças. Agora são meia dúzia e assim que têm idade e oportunidade partem. Restam os velhos!

Comentários

  • Há cerca de 10 anos fiz uma volta de bicicleta com o inatel que ligou souto a navas frias e depois foios e subimos a uma serra.

    Na altura chamaram a uma elevação no percurso a “mesa dos cardeais” porque segundo se dizia, era a intersecção de 4 territórios ou bispados e este sítio era o ponto onde os cardeais se encontravam.:-)

    Nunca mais me esqueci deste passeio e a serra é lindíssima.

    Não sabia que a serra se chamava serra das mesas.

    Obrigado pela reportagem que me fez recordar uma volta que me ficou na memória.

    Boas itinerâncias!

  • luís franco / 29-06-2012 / 17:18

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