À conversa com Joaquim Boiça

ITINERANTE: Na sua vida os faróis estão sempre presentes…

JOAQUIM BOIÇA: Sim. É um facto. Os faróis fazem parte da minha vida. Nasci em Aveiro… O meu pai estava a fazer serviço no Farol da Barra de Aveiro… e durante muitos e muitos anos vivi em faróis… Depois de Aveiro viemos para a zona de Lisboa e por aqui fomos ficando… Morei em Cascais, em Paço de Arcos, em S. Julião da Barra, no Cabo Raso, na Roca…

Mas não segue a vida de faroleiro… Quando se torna investigador vai pegar nessas vivências e vai estudar a história dos faróis?

Mas não comecei logo. O interesse existia, como é óbvio, mas, no início peguei noutros temas. Depois, quando surgiu a oportunidade não a enjeitei e apercebi-me logo que, do ponto de vista historiográfico, era um assunto que estava pouco trabalhado. Ainda hoje é assim, apesar dos avanços que se deram.

Falemos sobre os nossos faróis. Quando é que surgem os primeiros faróis, em Portugal?

Há um enquadramento de fundo para a emergência dos faróis em Portugal: somos um país que parte à descoberta e é a intensificação do nosso comércio marítimo que vai impulsionar a história dos nossos faróis; daí que seja precisamente nas décadas de vinte e trinta do século XVI, que surgem os primeiros faróis em Portugal. E aparecem em três pontos-chave da costa: o Farol do Cabo de S. Vicente, em 1520, sensivelmente, depois em 1528, esta data é segura, o Farol de S. Miguel-o-Anjo, no Porto e, por volta de 1537, o Farol da Guia… No século XVII surgem outros três. São faróis de entrada na barra dos principais portos: Lisboa, Porto e Viana do Castelo. Repare na importância económica dos faróis: com o desenvolvimento do comércio marítimo é fulcral sinalizar a entrada nos portos.

Há a percepção que Portugal nunca esteve na “linha da frente”…

Essa é uma outra questão muito falada na história dos faróis portugueses. O nosso atraso tecnológico e o nosso atraso ao nível da necessidade de alumiar a costa fez-nos ficar com o triste epíteto de “Costa Negra” mas, na minha opinião, isso só é verdadeiro entre os meados e o final do século XIX.

Não acompanhámos o processo a que eu chamo de industrialização do sector dos faróis. Os outros países passaram do artesanal para o industrial. Aparecem os grandes fabricantes… São sobretudo empresas francesas e inglesas… Foi a nossa incapacidade de perceber que algo estava a mudar do ponto de vista das tecnologias e que era importante investir, em vez de deixar em funcionamento velhos instrumentos, que nos prejudicou.

Mas recuperámos…

Sim. Recuperámos e neste momento, felizmente, estamos ao nível dos outros países. A Direcção de Faróis tem desenvolvido um trabalho excelente. Actualmente, por exemplo, há uma grande preocupação em relação ao próprio património.

E o futuro dos faróis qual é?

Risonho… Discute-se a necessidade de haver faróis e se o elemento humano é ou não dispensável… Na minha opinião, os faróis vão continuar a ser importantes na função que cumprem. Quanto aos faroleiros penso exactamente o mesmo; já não é o homem dos sete ofícios, agora é um “técnico especializado” mas que não deixa degradar o espaço e transmite segurança a quem navega. Ambos, farol e faroleiro, continuam a ser indispensáveis à navegação.

E em termos pessoais, qual é o futuro?

Quero continuar a produzir monografias sobre os faróis que mais me dizem e quero começar a fazer análise de conjunto dos faróis portugueses. Há grandes conjuntos, de natureza temática, por exemplo, que devem ser estudados e compreendidos no seu todo. É, por exemplo, o caso da Barra do Tejo e do Porto de Lisboa. Há muito estudo pela frente… Por enquanto vou reunindo material…

Versão completa na Revista Itinerante n.º 2

Comentários

  • Meu Deus !
    Quantas saudades do Joaquim

    A alma mais nobre que conheci durante a minha estadia em terras lusitanas.

    Sabe tudo!

    Em minha dissertação ele é tratado como O MEU GURU, e assim será para todo o sempre.

    Obrigado,

    Cleber Reis

  • Cleber / 28-08-2011 / 13:39

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