À conversa com Frei Bento Domingues

ITINERANTE: Um dos fenómenos religiosos que tem marcado as últimas décadas é o recrudescimento das peregrinações. O que é ser peregrino, nos dias de hoje?

FREI BENTO DOMINGUES: Peregrino, no verdadeiro sentido da palavra, é aquele que não pode parar. Gabriel Marcel em o Homo Viator fala no ser humano como o ser em viagem. Nós estamos sempre inacabados na procura de sermos melhores… E é esta procura a razão de ser da vida humana.

O Papa Bento XVI, na altura Cardeal Ratzinger, disse que «somos nómadas e peregrinos».

É isso mesmo. É a expressão perfeita de tudo isto. Peregrina-se à Terra Santa, a Roma e a Santiago, aos lugares marianos. Em Portugal, Fátima é o maior de todos, claro, mas, por exemplo, no Alto Minho havia imensas peregrinações, que as pessoas faziam, sempre ligadas a uma promessa.

Essa é a principal razão que leva as pessoas a peregrinar, o cumprimento de promessas?

Não podemos absolutizar. O fenómeno religioso tem muitas expressões… Há quem vá para cumprir uma promessa mas para outros é a necessidade de despojamento ou a procura de regeneração. O que me parece, agora já em termos teológicos, é que a peregrinação só tem sentido e valor se garantir transfiguração. A grande viagem acontece nessa peregrinação interior.

Há quem fale em caminhoterapia… há países que estão a utilizar o Caminho de Santiago para recuperar jovens condenados por pequenos delitos.

Há várias experiências nesse campo. Ir em peregrinação é terapia. É um tempo que damos a nós mesmos. É interessante repararmos como ao longo dos séculos, e isto tem que ver com o que eu dizia no princípio da nossa conversa – nada é acabado – as peregrinações têm adquirido configurações diferentes, tanto no quadro cultural como religioso.

Fátima é exemplo disso. Tem menos de cem anos e já passou por diversas configurações…

É indiscutível. Fátima tornou-se no tal cais de Portugal que o Bernardo Soares falava. A intensidade que se vive na Procissão das Velas e no Adeus é absolutamente arrepiante. Fátima, para mim, é ir de encontro ao nosso lugar. Com uma particularidade: cada um tem a “sua” Fátima, o seu assunto a resolver.

Mas não lhe parece que, actualmente, também se peregrina porque está na moda?

Claro que sim, mas eu não acho pejorativo. O importante é que a peregrinação seja interiorizada e seja enquadrada. Numa peregrinação há uma busca interior, individual, que muitas das vezes não se reconhece no discurso oficial e a Igreja deve ser maleável para compreender e aceitar as motivações de cada um. Se o não fizer arrisca-se a ver crescer no seu seio grupos fanáticos, que se acham os autênticos, os únicos que conhecem o verdadeiro caminho…

E o fanatismo religioso, neste início de século, é um dos grandes problemas com que a humanidade se debate…

As pessoas não conseguem viver sem crenças. Só que, no plano religioso, a nossa crença deve ser inclusiva do outro. No desporto e na política, porque há competição, compreende-se a exclusão. Na religião é incompreensível. Mas acontece e temos que lutar para alterar a situação. Não tenho dúvidas: sejamos cristãos, budistas, muçulmanos, ou de qualquer outra religião, sejamos agnósticos ou ateus, a procura da inclusão com o próximo é o que nos deve mover no dia-a-dia.

Versão completa na Revista Itinerante n.º 3

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